quarta-feira, 11 de julho de 2018

Após anunciar surdez, Clapton faz show em clima de despedida em Londres

Músico, que tem problemas auditivos e neuropatia periférica, toca para 65 mil no Hyde Park
Assim que subiu no palco para encerrar a terceira noite do festival de verão do Hyde Park, em Londres, na noite ensolarada de domingo (8), Eric Clapton se aproximou do microfone e anunciou: "Está vindo para casa".
A frase era uma referência bem humorada ao futebol e à música "Three Lions", que se tornou hino informal da seleção inglesa na Copa do Mundo da Rússia, mas também poderia ser interpretada como a volta do próprio Clapton a Londres e ao parque onde ele não tocava havia uma década.
O show no British Summer Time reuniu 65 mil pessoas para quase duas horas de apresentação impecável em clima de despedida e adoração no grande "quintal" da casa do guitarrista, que tocou mais de 200 vezes no Royal Albert Hall, em frente ao parque.
Por mais que ele ainda tenha apresentações marcadas para outubro em Nova York, a sensação no show em Londres era de que ele está realmente próximo da aposentadoria dos palcos, que vem anunciando pelo menos desde 2014.
Desde o anúncio da sua apresentação no verão londrino, a fragilidade do músico de 73 anos e seus problemas auditivos ganharam atenção internacional.
"Estou ficando surdo", disse Clapton, em entrevista no início do ano, na qual afirmou estar apreensivo em cantar e tocar guitarra por causa dos zumbidos em seu ouvido.
Além disso, ele sofreu uma neuropatia periférica —danos nos nervos que causam fraqueza, dormência e dor— e, em março de 2017, já havia cancelado shows e sido filmado em uma cadeira de rodas em Los Angeles. "É incrível que eu ainda esteja aqui."
O público londrino pareceu ter entendido a situação e entrado no clima de despedida. Enquanto Clapton e sua banda tocavam, a plateia assistia silenciosa e com atenção, quase como em transe, ao show que faz um apanhado da carreira do músico em 15 canções.
Clapton pode até estar ficando surdo e frágil e, em muitos momentos, parece preferir dividir os holofotes com o excelente guitarrista Doyle Bramhall e os ótimos tecladistas Chris Stainton e Paul Carrack, mas mostra que ainda tem total domínio sobre a música.
É ele quem comanda o show quase todo pontuado pelo blues. É ele quem rege a banda e são dele as principais bases e solos de toda a apresentação.
A cada nova música, o telão do palco focava quase sem parar as rápidas mãos do guitarrista liderando a banda e em, seu rosto, sempre com aparência tranquila.
Clapton fez uma apresentação na zona de conforto, intercalando virtuosidade na guitarra com muitos momentos intimistas e acústicos —mas com muita tranquilidade, como se não precisasse mais provar nada para ninguém.
Sem inventar muito, o repertório faz uma viagem por alguns dos maiores clássicos de Clapton e dos seus ídolos (como JJ Cale e Robert Johnson). Estão lá as obrigatórias "Layla" (em versão lenta e acústica) e "Cocaine" (elétrica, mais rápida e animada), e também "Hoochie Coochie Man" e "Crossroads", além de músicas mais pop e famosas, como "Wonderful Tonight" e "Tears in Heaven", esta tocada em versão acústica, mas em ritmo mais acelerado, quase como um reggae.
Dois dos grandes momentos da apresentação foram marcados por participações especiais.
Primeiro foi a cantora americana Marcy Levy (que atualmente usa o nome Marcella Detroit), que subiu ao palco para cantar "Lay Down Sally" e "The Core". Levy tocou e compôs com Clapton nos anos 1970 e 80, mas não se apresentava com ele desde 1985.
Na volta para o bis, convidou ao palco o guitarrista mexicano Carlos Santana, que havia se apresentado antes dele no festival. Juntos, tocaram "High Time We Went", de Joe Cocker, numa longa jam festiva. Como num encontro de velhos amigos músicos, toda a banda parecia realmente se divertir numa festa de quintal.
Ao final, já sem tocar e ainda muito aplaudido, Clapton demorou a sair do palco. Cumprimentou cada um dos músicos com longos abraços e acenou para o público, dando fim à festa que pode ter sido sua despedida de Londres. "Vocês foram maravilhosos nesta noite", dizia uma mensagem no telão após o show.

2 comentários:

Anônimo disse...

Que bom se todo artista surdo se aposentasse. Ou melhor, tentasse outra atividade.

Anônimo disse...

Que bom se todo artista surdo se aposentasse. Ou melhor, tentasse outra atividade.