domingo, 12 de março de 2017

Músicos cuiabanos batem-se contra várias dificuldades para viver de arte

Músicos profissionais enfrentam um mar de adversidades para sobreviver de seu ofício em Cuiabá. À parte os perrengues, boa parte deles consegue o intento, ainda que com ganhos nem sempre correspondentes ao esforço e, na maioria dos casos ao menos, talento. O RD News tentou falar com pelo menos doze desses músicos e ou bandas. Entre os quais, dois dos que mais tocam na noite da cidade verde: Heróis de Brinquedo e Henrique Maluf.
Tanto a primeira quanto o último tocam pelo menos três vezes por semana, têm calendários fixos, encontram na maioria das vezes casas lotadas. Preferem não divulgar quanto ganham mensalmente. Maluf é músico formado pela Universidade Federal de Mato Grosso e trabalha somente com música. Os integrantes da Heróis de Brinquedo tem profissões diversas, de produtor de televisão a estudante de psicologia. E todos têm outras atividades além da banda.
Esses artistas compõem, mas para sobreviver tocam essencialmente composições de outros músicos, os chamados covers. Foram questionados sobre isso, mas preferiram não responder. Entre os músicos que aceitaram falar (um respondeu que as perguntas, sobre como começou na música, se tem parentes músicos e média de ganho mensal, eram “pessoais demais”, numa boa demonstração de como não se fazer marketing, pessoal ou profissional), há um traço comum: todos tocam pelo menos desde o fim da infância e vêm de famílias musicais, com artistas sempre por perto.
Desses, Giulia Galvão, 21 anos, é vocalista de uma banda de baile, a Tríade. Como os Heróis de Brinquedo anunciam em sua página no Facebook, tocam em casamentos, formaturas, eventos privados, aniversários. Giulia conta que começou a trabalhar com música desde os 14, como backing vocal na banda dos tios.
“Depois comecei a cantar minhas próprias seleções e nela estou até hoje. Quando eu comecei, eu ganhava um cachê muito simbólico, como um incentivo para começar, pois toda a minha família é de músicos, meu pai, os irmãos dele, os filhos dos irmãos dele, que formavam a Banda Hátores e fazia muito sucesso nos anos 2000”, explica. Assim, não faltou incentivo. Ganhou o primeiro violão ainda aos nove anos.
Como ela segue integrante de uma banda baile, trabalha praticamente todos os finais de semana, além de manter uma parceria com outro cantor para tocar tocando em barzinhos. Faz shows fixos nas quintas e domingos. Tem renda variável, chega a ganhar R$ 1,8 mil quando o mês é bom, quando não, tem que se virar com cerca de R$ 750. “Como tem meses que trabalhamos pouco, fica difícil contar somente com o ramo de eventos”, explica. A parceria é uma maneira de conseguir preencher a agenda e melhorar o rendimento. Para defender o resto da sobrevivência, faz doces e salgadinhos para festas junto com a mãe.
Ela mostra a realidade que muitos tentam esconder, das dificuldades de viver somente de arte. “Dos músicos que eu conheço, poucos vivem só de música, e os que ainda o fazem, estão estudando para terem outra profissão e deixar a música como uma segunda maneira de renda, e não a primeira. Mas deixar a música nunca é uma opção”, esclarece.
Outro músico, Roberto Viana, o Beto, baixista, ganhou uma bolsa em 1993 para estudar no conservatório de música da professora Edith Seixas. Estudava piano clássico, mas chegou a adolescência e com ela a banda Iron Maiden. Foi quando decidiu trocar o piano pelo contrabaixo e a música erudita pelo rock pesado.  Isso foi quando tinha 12 anos. Aos 16, já sabia o que iria se tornar: headbanger, baixista de banda de rock. “Nessa época, já tinha traçado todo um plano pra minha vida, porque nunca soube fazer outra coisa a não ser tocar, estar no universo musical. Sempre trabalhei de roadie, saía escondido dos meus pais para poder tocar e fazer trabalho de técnico de áudio”, conta Beto.
Como sempre envolveu mais prazer que esforço, não consegue nem mesmo se lembrar do primeiro cachê, mas o objetivo de ver a arte das notas musicais conjugadas em sequência lógica ou não sempre esteve em foco. Seu trabalho mais antigo remunerado dentro do rock, aí ele já tinha 18 anos e já havia tocado com músicos de todas as matizes, duplas sertanejas, bandas de baile, chegou num dos primeiros festivais realizados na cidade, no começo dos anos 2000. A família, conta, não teve influência direta, apesar de os pais tocarem em corais na igreja, dos tios maternos tocarem viola caipira e violão. Mas o pai sempre ouviu muita música clássica, especialmente Chopin e Debussy.
Foi esse inclusive o motivo de ganhar a bolsa para o conservatório, o amor do pai pelas composições eruditas. “Essa foi a maior influência do meu pai”, no talhar o gosto pelo caminho dos bons repertórios em casa. Hoje, Beto se dedica ao magistério. Dá aulas de musicalização na rede pública municipal nos bairros CPA 3, Jardim Vitória e Jardim Florianópolis. O foco é o cancioneiro infantil, mas às vezes, claro, ele coloca algum rock’n roll.
Essa dedicação às crianças o levou a diminuir a frequência na noite. Se antes ele fazia entre quatro e seis noites, hoje não passa de duas, exatamente para não diminuir a força de seu trabalho de educação musical. Toca nas bandas Eddie Force One (dedicada ao Iron Maiden) e The Bugres (com Henrique Maluf e outros músicos, dedicada a clássicos do rock  e do hard rock). Nos tempos de vida mais intensa na noite, chegou a sustentar a família (ele é casado e tem um filho) exclusivamente com tocar na noite. “Cheguei a faturar mil reais em uma noite. E só tocando rock’n roll”, faz questão de frisar.
Sobre o fato de tocar covers ou músicas autorais, ele afirma não se preocupar muito com isso. “É tudo interpretação. Se toca música sua, interpreta sua música, se toca a de outros compositores, interpreta a música desses, mas o foco é na interpretação. Porque todo músico, ao subir no palco, interpreta um personagem”, raciocina, lembrando, entretanto, que é praticamente impossível alguém viver de composição autoral nos dias de hoje no Brasil e especialmente em Cuiabá. “Eu tiro o chapéu para quem conseguir se manter e ter uma renda só com composições próprias. É realmente digno de admiração”. Mesmo assim, já tem um projeto novo para exatamente mostrar composições próprias.
Como Beto, Giulia e outros que preferiram o anonimato lembram dificuldades tais como baixos cachês e dificuldades técnicas com som e volume, além de alguns empresários pouco profissionais que obrigam os músicos a pagar até mesmo a água consumida em shows. “Mas também tem aqueles bares e casas noturnas que acolhem muito bem aos músicos, e nesses vale a pena tocar”, agradece Giulia.
(...Leia mais em RD News - por Rodivaldo Ribeiro - foto de Tchélo Figueiredo)

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