sexta-feira, 17 de março de 2017

Lilteratura: Distopia que influenciou '1984' e 'Admirável Mundo Novo' é lançada

Utopia é uma palavra cunhada por Thomas More (1478-1535), um político, advogado e escritor inglês canonizado 400 anos após sua morte. Publicado em 1516 em latim, o livro Utopia descrevia o sistema político de uma ilha imaginária. O neologismo de More significa algo como “não lugar” em grego, ou seja, transmite a ideia de um local que, por ser perfeito, não existe. O contrário da utopia é a distopia, estilo literário de clássicos como Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury e A Laranja Mecânica (1962), de Anthony Burgess. 
Com a ascensão de Donald Trump à Casa Branca, os títulos do gênero retornaram às prateleiras e listas de mais vendidos, o que faz de 2017 um ano propício para o resgate da obra do russo Ievguêni Zamiátin (1884-1937), tido por muitos como o pai da distopia. Escritor, editor e dramaturgo crítico do regime soviético, Zamiátin viu seu principal livro, Nós, ser censurado. O obra só foi publicada em 1924, nos Estados Unidos, quando um manuscrito cruzou a cortina de ferro e foi traduzido.
No futuro distante de Nós, a pequena fração da população que sobreviveu a uma guerra se submeteu ao Estado Único, uma ditadura totalitária que supre as necessidades do povo e suprime seus direitos. Governada pelo Benfeitor, eleito anualmente por unanimidade e sem oposição, a sociedade é completamente livre de diversidade. Identificados por números, todos perderam suas individualidades e vivem em casas de vidro e só podem baixar as cortinas nas duas “horas pessoais” às quais têm direito diariamente. A vida sexual é controlada por talões com tíquetes rosas cujos canhotos devem ser assinados pelos parceiros registrados previamente junto ao Estado. Ditada pela “Tábua das Horas”, um cronograma unificado, a rotina de atividades, trabalho, exercícios físicos e refeições é comum a todos. Em dado momento, uma pintura “antiga”, do século 20, de uma avenida cheia de pedestres heterogêneos, é descrita no livro como “inverossímil” – afinal, no Estado Único todos vestem os mesmos uniformes azuis.
A narrativa é em primeira pessoa e Nós é, na verdade, o caderno de anotações de D-503, engenheiro responsável pela construção de uma espaçonave. As notas do protagonista são relato documental de sua sociedade, mas também apresentam tom confessional e digressivo. Um verdadeiro burocrata dos números, D-503 muitas vezes não sabe se expressar a não ser pela matemática. “A liberdade e o crime são tão indissoluvelmente conectados entre si como… Bem, como o movimento do aero e sua velocidade: se a velocidade do aero = 0, então ele não se move. Se a liberdade de uma pessoa = 0, então ela não comete crimes”, escreve em um de suas anotações.

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