segunda-feira, 11 de maio de 2015

NIETZSCHE – SCHOPENHAUER COMO EDUCADOR

Em outubro de 1865, Nietzsche descobre em um antiquário de Leipzig dois volumes de um livro chamado “O Mundo como Vontade e como Representação”. Trata-se da obra mais importante de Schopenhauer, cuja leitura seria como um golpe em que, segundo suas próprias palavras, “ficou algum tempo andando por ali como que embriagado” (Safranski).
Qual seria a lição de Schopenhauer? Como e por quê seria Schopenhauer um educador para Nietzsche? A Terceira Extemporânea: Schopenhauer como Educador, foi escrita em 1874, dez anos após este contato inicial, quando ainda dava aulas na Basileia. Apesar dos ares de despedida, “retribuímos mal a um professor se continuamos apenas alunos” (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra), Nietzsche não quer partir sem antes dedicar-lhe as devidas honras.
Schopenhauer é um educador na medida exata em que não se dobrou ao Estado, nem à filosofia acadêmica, nem à cultura de seu tempo. Sua preocupação é com o cuidado de si, o cultivo próprio, de onde tira forças para impor seus próprios valores (o valor destes valores não será discutida aqui).
A crítica de Nietzsche à cultura de seu tempo elege Schopenhauer como um educador porque a cultura toma demais o homem de si mesmo. Não há como ser grande dobrando-se à cultura, ela é um roubo de nossa constituição íntima. Como crescer, como tornar-se grande à sombra desde colosso monstruoso e desfigurado? Não, é preciso isolar-se, construir trilhas novas que não passem pelo terreno cimentado do tempo presente. “Nietzsche põe impiedosamente a nu a hipocrisia, o artificialismo, a aridez e a cândida auto-satisfação que caracterizam a moderna cultura europeia, em todas as suas esferas” (Giacoia). E neste caso, todas as esferas incluem a religião, a arte, a moral, e toda esta mistura que chamamos espírito da época.
“Se todo grande homem chega  ser considerado, acima de tudo, precisamente o filho autêntico de seu tempo e, em todo caso, sofre de todas as suas mazelas com mais força e mais sensibilidade do que todos os homens menores, então o combate de um tal grande contra seu tempo é, ao que parece, apenas um combate sem sentido e destrutivo contra si mesmo. Mas, justamente, apenas ao que aprece; pois o que ele combate em seu tempo é aquilo que o impede de ser grande, e isto para ele signitfica apenas: ser livre e inteiramente ele mesmo” – Nietzsche, Schopenhauer como Educador, §3
E Nietzsche conclui dizendo de Schopenhauer, mas também indiretamente de si mesmo e de todo aquele que não se dobra ao poder ou à cultura: “a aspiração por uma natureza mais forte […] era nele uma aspiração por si mesmo” (Nietzsche).
O Estado é também aclamado pelo povo nos tempos da Terceira Extemporânea, e merece uma descontrução radical. O que quer o Estado de seus homens? Poderíamos encontrar nele o advento de um homem livre ou porventura o servilismo mais abjeto? O homem se oferece como sacrifício ao Estado: quer ser um bom cidadão, homem de bem, honrado, respeitado, conhecido, prestativo. O Estado transforma os homens em uma vara e quando este olha para si, já tem focinho e rabo de porco. Não há caminho do meio, deve-se andar nas bordas para não ser tragado, ou contaminado pela picada destas moscas contagiosas.
O Estado absorve a cultura, a educação e, por fim, a filosofia. O que podemos falar da prática filosófica na academia nos tempos de Nietzsche? O que se pode dizer dos filósofos acadêmicos desta época?
“Todo Estado tem medo deles e sempre favorecerá somente filósofos dos quais não tem medo. Acontece, com efeito, que o Estado tem medo da filosofia em geral, e precisamente, se este é o caso, tentará atrair para si o maior número de filósofos que lhe deem a aparência de ter a filosofia ao seu lado” – Nietzsche – Schopenhauer como Educador, §6
Já podemos imaginar onde isso vai dar, mas Nietzsche é tão claro que preferimos usar suas palavras:
“Se alguém suporta, pois, ser filósofo em função do Estado, tem também de suportar ser considerado por ele como se tivesse renunciado a perseguir a verdade em todos os seus escaninhos. Pelo menos enquanto estiver favorecido e empregado, ele tem de reconhecer ainda, acima da verdade, algo superior, o Estado” – Nietzsche – Schopenhauer como Educador, 8
A filosofia nômade de um pensador amarrada às cátedras empoeiradas e salas abarrotadas de estudantes? Difícil, senão impensável. Diógenes de Sínope preferia ficar deitado ao sol, do lado de seu barril que servia de casa; Espinosa preferia recusar a cátedra universitária à limitar seu pensamento; Schopenhauer preferia tocar flauta e passear com seu cachorro, Atma, pela cidade; Nietzsche preferia suas longas caminhadas onde as ideias brotavam em sua cabeça.
Claro que existem exceções, a filosofia tem desses devires imperceptíveis onde o inimigo está logo embaixo do nariz do poder: Deleuze deu aulas a vida inteira, tal como Foucault. Mas nesse caso, o filósofo usa do poder para desmontá-lo. Não como Hegel, enaltecendo o Estado com sua filosofia. A filosofia é o pensamento nômade criador, não o repensar, refletir, reexaminar, os copistas faziam isso, mas Deus morreu…
“Pergunta: pode propriamente um filósofo, com boa consciência, comprometer-se a ter diariamente algo para ensinar? E a ensiná-lo diante de qualquer um que queira ouvir? Ele não tem de se dar a aparência de saber mais do que sabe? Não tem de falar, diante de um auditório desconhecido, sobre coisas das quais somente com um amigo mais próximo poderia falar sem perigo? E, em geral: não se despoja de sua mais esplêndida liberdade?, a de seguir seu gênio, quando este chama e para onde chama?” – Nietzsche – Schopenhauer como Educador, §8
Não, a filosofia não é sinônimo de academia, pode até estar próxima, mas em geral é o antônimo dela. Fabrica seres pensantes, mas que pensam como máquinas; produzir filósofos em série ou qualquer outro tipo de pensador é a decadência de uma época como a nossa. A filosofia explode os muros da academia. Lembrando maio de 68, podemos dizer: “Professores, vocês são velhos, a vossa cultura também”. Por fim, o exame de seu tempo é como que um golpe mortal a Hegel, mas é mais ainda, Nietzsche termina a terceira extemporânea com uma pergunta que devemos repetir todos os dias ao entrar nas salas de aula:
“E se esse suspiro profundo fosse justamente o propósito do Estado?, e a ‘educação para a filosofia’, em vez de conduzir a ela, servisse somente para afastar da filosofia?” – Nietzsche – Schopenhauer como Educador, §8

- Razão Inadequada -

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