segunda-feira, 9 de março de 2015

A vergonha de conquistar e vencer, provocada pela nova linguagem, onde a meritocracia beira a crime

Orgulho e Vergonha. Isca Intelectual de Luciano Pires sobre um papo antigo que parece ganhar cada vez mais espaço na mídia.
Querem que eu tenha vergonha.
Vergonha de ter um bom emprego. Vergonha de morar numa bela casa em um bairro classe “A”. Vergonha de ter educação superior. Vergonha de viajar em férias para o exterior. Querem que eu tenha vergonha de ter amigos “bem de vida”. Vergonha de falar inglês. Vergonha de ter mais de dois aparelhos de televisão em casa. Vergonha de sair pra comer em restaurantes, de ir ao teatro quando quero. Vergonha de comprar livros importados.
Não tenho sobrenome famoso, não herdei coisa alguma e não tenho pai milionário. Faço parte de um grupo de brasileiros que, a partir do trabalho honesto, construiu seu patrimônio. Tenho uma vida muito diferente da vida dos milhões de miseráveis que habitam “estepaíz”. Sou “dazelite”. E por ser “dazelite” sou considerado diferente dos “outros” brasileiros. Querem me responsabilizar pela miséria dos desafortunados. Chamam-me de burguês, explorador dos proletários. Querem que eu me envergonhe de ter o que nem todos têm. Querem me punir pelo meu sucesso. Insinuam a meus filhos que eles são “do mal”. A cada dia, taxam mais e mais meus ganhos e meus gastos, como que punindo minha capacidade de consumo. Baixam a qualidade dos bens e serviços de que preciso. Querem que eu me envergonhe de meu sucesso.
Mas eu sei de onde vim e como vim. Sei quanto vale e quanto custou o que tenho. E sei o que quero para meu país. Quero um país onde o sucesso seja celebrado. Um país no qual as pessoas que trabalham duro conquistem seu lugar ao sol. Um país onde cada um vença por mérito próprio. Um país que não dê espaço para os vagabundos. Um país onde as leis tenham um só peso, uma só medida. Um país onde as ideologias jamais sejam colocadas acima do bem comum. Um país onde a ignorância nunca seja celebrada. Um país no qual a inteligência seja cultuada, o profissionalismo seja exigido e a educação seja prioridade. Um país onde ninguém jamais tenha que se envergonhar de ser bem sucedido.
Por isso, prefiro ter orgulho de ter um bom emprego. De ter um bom carro. De morar numa bela casa em um bairro classe “A”. Orgulho de ter educação superior. De viajar em férias para o exterior. De usar roupas de marca. De ter amigos “bem de vida”. De manter meus filhos em escolas particulares. Orgulho de falar inglês. De sair pra comer em restaurantes, de ir ao teatro quando quero. Tenho orgulho de pertencer à “zelite”. De ter chegado onde cheguei, por meus méritos. De ter criado as oportunidades. De ter cultura para reconhecer os que tentam me manipular.
Sou diferente, sim. Diferente dos que, em vez de celebrar o mérito, tentam fazer com que eu tenha vergonha de ser o que sou.
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Luciano Pires
Esse texto é de 2006 e está no livro NÓIS...QUI INVERTEMO AS COISA, que você encontra aqui: http://www.portalcafebrasil.com.br/loja/destaques/nois.html

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