domingo, 3 de agosto de 2014

Fora de cartaz? Vídeo locadoras e lojas de discos sobrevivem ao novo mercado

Os mercados do cinema e da música são, sem dúvidas, soberanos indiscutíveis dentro da milionária indústria cultural. Tanto que é impossível imaginar um mundo sem estas expressões da arte e suas estrelas. Mas, o mesmo não se aplica a duas de suas aliadas, até pouco tempo muito valiosas: as videolocadora e lojas de CDs. O fácil acesso a filmes e músicas possibilitado pela democratização da internet, desmaterializou estes produtos criando um público conectado e acostumado às facilidades dos downloads. Estas vantagens da tecnologia levaram muitos estabelecimentos destinados a vendas e locações destes produtos à beira da falência. No entanto, algumas empresas se reinventaram e conseguiram sobreviver – até agora – utilizando as poucas coisas que as máquinas não conseguem substituir: o calor humano e a criatividade.
A decadência deste comércio começou de forma lenta, mas certeira. Ao contrário do que aconteceu no passado, em que as inovações aqueceram o mercado (como a substituição do LP e fitas cassetes e VHS pela chegada dos CDs e DVDs), desta vez o blu-way não foi suficiente. Por outro lado o espaço quase ilimitado do MP3 trouxe independência e revolucionou o jeito de ouvir e adquirir música. Com a chegada de tocadores de alta tecnologia, como o iPod, por exemplo – que por sua vez também já foram substituídos pelos smartphones – o consumidor pôde baixar da internet quase uma infinidade de música.
Por isso, se há cerca de dez anos as locadoras e lojas de discos eram vistas em cada esquina, agora seguem destino ao semelhante das lan houses: um quase inevitável desaparecimento. De acordo com dados da Junta Comercial do Estado de Goiás (Juceg), na Grande Goiânia hoje, existem 667 locadoras. Nos dados do órgão, a queda pode ser notada claramente no número de empresas criadas nos últimos 10 anos. Se até o ano de 2004 eram instituídas 850 locadoras novas, desta data para os dias atuais foram estabelecidas apenas 29.
Adaptação da tv
Mas, se esta “competição” parece ser injusta comparada aos poderes da internet, há ainda mais um agravante: a evolução da TV. Além dos sites que oferecem downloads gratuitos dos últimos lançamentos cinematográficos e musicais, na TV por assinatura existem opções segmentadas de filmes para diversos gostos e faixas-etárias e ainda várias formas interativas, que permitem alugar produções sem sair do conforto do lar. Estas possibilidades provam também a forma rápida de adaptação da mídia televisiva ao mundo virtual, que prenderam de volta o telespectador.
Outro fator que culminou no enfraquecimento do mercado foi a famigerada pirataria. Mesmo prevista no Código Penal como crime (no art. 184, que fala sobre a violação dos direitos do autor), é fácil encontrar produtos falsificados e por valores em conta. Por menos de R$ 5 pode-se levar um DVD ou CD para casa, que em uma loja custaria no mínimo o triplo. É fato também que muitas vezes o cliente pode ter em mãos um filme sem qualidade de imagem ou áudio. Porém, como o tempo comprovou: há quem queira pagar menos – literalmente – para ver.
Resgate do público
Adepto de quase todas as mídias, o analista de sistemas Alexandre Oliveira, de 23 anos, perdeu as contas de quantos anos não pisa em uma locadora. “Há muito tempo que não vou. Para ver filmes, além de baixá-los pela internet, assino uma TV pela internet, em que pago R$ 17 e posso assistir quantos filmes e séries eu quiser. Além de ser mais fácil, é mais prático, já que não preciso sair de casa. O mesmo acontece para as lojas de CDs. Baixo tudo”, conta Alexandre.
Este é o perfil básico do cliente, que o administrador da videolocadora C.A.R.A filmes, Cléber Morais, viu fugir do comércio nos últimos 10 anos. “Nós tivemos uma queda de aproximadamente 30% em nosso movimento”, contabiliza. Para sobreviver ao novo estilo de público, o local, que é uma das mais tradicionais em Goiânia – com 25 anos de existência – tem evidenciado aquilo que sempre foi o seu diferencial: os filmes cults e raros para atrair os cinéfilos.
Hoje, com três funcionários – a empresa chegou a ter 16 em sua época áurea –, a C.A.R.A tem investido na variedade de títulos que vão além do cinema hollywoodiano. Foca na disponibilidade de produções pouco encontradas, geralmente exibidos apenas em mostras de cinema ao redor do mundo. “Queremos atingir os cinéfilos, que é grande parte dos nossos clientes. Além dos blockbusters, temos filmes de várias nacionalidades, como europeus e japoneses. Investimos ainda nos clássicos e nos seriados, tanto os mais recentes como mais antigos”, conta o administrador.
Este estilo agrada em cheio a auxiliar administrativo Izenilda Uto. Uma das clientes mais assíduas da C.A.R.A, ela assume frequentar a videolocadora mais de uma vez por semana, por várias razões. “Ainda não me familiarizei em baixar vídeos pela internet, porque a locadora supre as minhas necessidades. Além de ser perto da minha casa, tem todos os filmes que gosto e o atendimento também é caloroso. Quando há lançamentos me ligam dizendo que chegou vídeos que vou gostar. Construí até uma relação de amizade com os funcionários”, revela.
Sem crise
Em se tratando das vendas de CDs, uma das maiores lojas de produtos culturais do mundo, a Fnac, talvez tenha previsto a soberania da internet, por isso sempre investiu na diversidade, comercializando ainda livros e tecnologia de vanguardas. Porém, para o assessor nacional da loja Fernando Sant’Ana, existe de  fato uma “retração mundial do mercado dos CDs”, mas garante que as vendas de DVD continuam em alta.
Questionado sobre o uso de novas possibilidades como os singles (um formato menor que o CD), ou a utilização de projetos gráficos mais simples, para diminuição do preço dos álbuns, Eduardo disse que a indústria tem estudado alternativas. Porém, afirmou que, independente de novas propostas, os CDs sempre estarão presentes na loja.
Para manter o mesmo público da época de ouro dos DVDs e CDs, o assessor disse que a Fnac investe no atendimento na qualidade e em outras medidas menos convencionais: “Nós somos pioneira na realização de eventos gratuitos, como shows e teatros, dentro da loja”, conta Eduardo.
Cultura retrô
Criada para comercializar discos em vinil no ano de 1992, o sebo Hocus Pocus, depois de ver o produto preterido pelos CDs, resolveu não investir a fundo no novo mercado. Manteve os LPs, mas, para sobreviver, o local apostou também na comercialização de revistas em quadrinhos.
Após décadas ignorado, de uns anos para cá, o sebo, que hoje possui mais de 5 mil vinis disponíveis para venda, tem acompanhado a volta do interesse do público pelos antigos “bolachões”. Esta retomada, um dos donos da Hocus Pocus, Luís Fasan, atribui à fabricação de novas vitrolas e o crescimento de colecionadores.
“Os admiradores do vinil acreditam que nele há uma sonoridade e timbres que não existem no CD e no DVD. Os maiores interessados são os fãs do rock e MPB feito nos anos de 1970. Eles procuram em grande maioria bandas como: Beatles, Black Sabbath, Rolling Stones, entre outros desta época”, conta.
- Diário da Manhã -

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