sábado, 31 de maio de 2014

Para Diretor do Spotify, não é verdade que brasileiro não quer pagar por música

Um dos mais populares serviços de streaming de música no mundo, o Spotify anunciou oficialmente sua chegada no no Brasil nesta quarta-feira (28). 
O serviço já estava em período de testes no país desde março para alguns usuários convidados e chega após alguns meses de atraso em relação aos planos originais – a expectativa era de que o serviço fosse apresentado ainda em 2013.
Já com alguns concorrentes como Rdio e Deezer no mercado, a empresa sustenta que a maior luta não é de um streaming contra o outro, mas de todos contra o download pirata de músicas no país.
Em entrevista ao Canaltech após a apresentação da plataforma, o diretor do Spotify para a América Latina, Gustavo Diament, afirmou que usuários brasileiros consomem mídias piratas, em grande parte, por desconhecimento de métodos legais que se encaixem em seu modelo de consumo.
"Na hora que você oferece algo grátis, melhor e deixa claro que é legal, não tem porque não ter essa curva de adoção [do streaming]", afirmou. "A questão é como você comunica isso da maneira mais eficaz possível, que será através de nossas campanhas de marketing".
Para o Brasil, a empresa vai trazer o mesmo modelo de negócio aplicado nos outros 56 países onde tem presença: uma assinatura gratuita, suportada por anunciantes; e o modelo Premium, que custará R$ 14,90 por mês.
Desde sua criação, em 2008, a empresa já repassou mais de US$ 1 bilhão para artistas e selos de gravação em direitos autorais, o que representa cerca de 70% de sua receita anual. Os 30% restantes são responsaveis por sustentar todas as ações, parcerias, inovações e investimentos da marca, o que já levantou dúvidas no mercado se o modelo de streaming é realmente viável.
Os números, entretanto, são impressivos: 40 milhões de usuários ativos (10 milhões pagantes), 30 milhões de faixas disponíveis, sendo 20 mil novas músicas adicionadas diariamente, e 1,5 bilhão de playlists criadas. Será que por aqui o serviço vai pegar?
Canaltech: Gostaria de começar falando sobre o modelo de negócio do Spotify. Vocês chegam a passar 70% da receita para artistas e gravadoras em direitos autorais. Com os 30% restantes, existe um modelo sustentável?
Gustavo Diament: Dois pontos são importantes. Se você compara o que a gente publicou de resultado aberto de 2013 para 2012, você vai ver que nossa receita duplicou. Se isso [um modelo insustentável] fosse verdade, nossa perda teria duplicado e ela aumentou marginalmente, foi um aumento bem pequeno, versus 100% de aumento na receita. Isso mostra que existe, sim, o caminho da lucratividade nesse modelo. Mas o mais importante agora é crescer o negócio, esse é um negócio de escala. É um negócio que gerou mais de US$ 1 bilhão em pagamentos de direitos, em dinheiro incremental. A evidência é que essas pessoas tinham experiências ilegais com música e metade desse US$ 1 bilhão foi só no ano passado. No ano passado, a gente fechou o ano com 55 países, mas não é nem certo usar 55, porque 20 desses países foram lançados em dezembro. Na maior parte do ano a gente não trabalhou com esse número e gerou US$ 500 milhões. Acreditamos no modelo e acreditamos que a indústria acredita nesse modelo. A indústria saiu de uma posição de fazer a pergunta "será que isso é para nós?", para uma posição de "como é que eu te ajudo a crescer mais rápido?". O caminho que o Spotify criou de criar um produto melhor que a pirataria, que é um modelo grátis e melhor que o modelo da pirataria, que remunera artistas e a indústria como um todo, é um modelo viável, sim.
CT: Você chegaram no Brasil e lançaram o produto com o pagamento só em dólar, só com cartão internacional. Isso vai atrapalhar o início das operações?
GD: Zero. E porque digo zero: a curva natural de adoção do nosso produto é através do modelo grátis. Os usuários entram no modelo grátis, começam a usar e experimentam. Eles têm acesso à mesma curadoria, ao mesmo algorítimo de personalização e às mesmas funcionalidades do lado social, que é o tripé que faz o Spotify ser diferente. Isso está no modelo grátis. A partir disso as pessoas começam a usar mais e considerar a migração para o modelo pago para ter basicamente três benefícios: o primeiro deles é o acesso offline, fazer um download e não precisar de rede para escutar sua música; o segundo é você não ter publicidade, apesar de pouca, são três minutos para cada hora de música tocada; e uma qualidade de música melhor, que passa de 120K para 360K. Como essa adoção do modelo pago não é imediato, a gente acredita que isso não é um problema. Quem vai usar o modelo pago são os early adopters, que em geral têm cartão internacional.
CT: Que é cerca que 25% dos usuários.
GD: Hoje a gente está com esse número de 10 milhões de pagantes para 40 milhões de usuários, que é uma taxa de 25% de conversão. É bem alta.
CT: Sobre a questão da pirataria. Vocês colocam que esse é o grande adversário de mercado, não outros players, mas o que vocês farão para trazer usuários desse modelo para o Spotify?
GD: Eu acho que é a tropicalização do que a gente faz lá fora. É muito importante a gente gerar awareness e conhecimento do que que é o Spotify, porque se as pessoas não entendem que existe uma plataforma de streaming, que no fundo é uma plataforma de acesso a toda a música do mundo grátis, mas que é melhor que a pirataria, no fundo não existe nem como você cogitar mudar para o que não conhece. Como eu falava, existe essa crença que o brasileiro não quer pagar, que o brasileiro é diferente. Isso não é verdade. O que acontece é que o modelo de negócio que existe não se adapta ao estilo de vida que o brasileiro quer. Pode ter alguém que prefere o pirata, mas não é isso. Na hora que você oferece algo grátis, melhor e deixa claro que é legal, não tem porque não ter essa curva de adoção. A questão é como você comunica isso da maneira mais eficaz possível, que será através de nossas campanhas de marketing. Não há dúvidas de que esse arsenal acelerará a curva de conhecimento do produto, da marca e da geração de uma relação emocional com nossa marca para que possamos crescer e ser, de verdade, uma alternativa viável para a pirataria e não só um discurso. Isso aconteceu em vários mercados e acredito que também acontecerá aqui.
CT: Mas e sobre os outros players do mercado. Vocês chegam por último, já há vários players por aqui. Isso atrapalha a operação?
GD: Dá uma olhada nos Estados Unidos, nós também fomos os últimos e somos líderes no mercado entre os players que têm modelos de negócio similares ao nosso. Então, a gente ainda está nos primeiros dias no mercado de streaming no Brasil, o fato de chegarmos agora e já termos outros players estabelecidos, para a gente, não significa muito.
CT: O mercado ainda está no começo?
GD: É tudo muito começo ainda, é um campo verde. Há espaço para todo mundo que quiser trabalhar direito. De novo, o grande concorrente é a experiência ilegal. Que bom que já tem players que já começaram o trabalho. Nós queremos acelerar esse trabalho e aumentá-lo. Não adianta ser líder de mercado pequeno.
CT: Sobre parcerias, vocês anunciaram uma série de marcas que vão sustentar o modelo gratuito, mas queria saber mais sobre operadoras, que é algo importante para o Spotify lá fora. Já estão conversando com alguma?
GD: Se você olhar a história do Spotify lá fora e todas as parcerias que a gente tem com as telecoms, pode ser um caminho natural ter uma parceria com uma telecom no Brasil. Não posso te dizer se já estamos em conversas ou não, mas se você ver o que acontece lá fora, pode fazer suas hipóteses. Mas posso te dizer que o foco não é parceria, é entregar essa experiência para o cliente final. Fazendo isso bem feito, parceria é um resultado. Nós não usamos uma parceria como muleta. Tem muito negócio de internet que usa os parceiros para entregar um mau produto, aí você só acelera sua curva de fracasso. Não é esse o caso do Spotify.

Fonte: Corporate

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