sábado, 19 de abril de 2014

Leia trecho de 'Antiterapias', do vencedor do Prêmio São Paulo Jacques Fux

"Malditos nazistas. Eichmann. Bormann. Argentina. Brasil. Agora tudo faz sentido. Tudo se encaixa. Eu era uma criança normal. Normal, com todas as peculiaridades de uma criança judia que vivia nos guetos modernos. Tinha minha mãe e meu pai judeus, meus amigos judeus, meus parentes judeus, minha escola judia, o clube judeu e, naquela época, até pensava que o Show da Xuxa era um programa kasher. Eram muitos úteros me protegendo. O primeiro deles eu consegui romper (como todo mundo), a duras penas. sinto que depois de sair daquele lugar quentinho, úmido, confortável e seguro (ainda o procuro sempre), tomei meu primeiro pé na bunda. Na verdade, anos depois, vejo que foi só um tapinha na bunda no estilo Michelangelo, já que eu era de fato uma obra-prima e que deveria parlare. Mas mamãe logo me deu carinho, afeto, proteção e muito leite. Eu não precisava nem chorar. Teria tudo. Então nem sofri tanto com esse primeiro pontapé. Uma semana depois, cortaram o meu prepúcio. Brit-milá, meu pacto com o povo escolhido e minha imunidade em relação à maldosa Lilith. Se é que Deus e Lilith existem. Ou será que a circuncisão é realizada para se ter a certeza de estar sempre incompleto? Aqui a incompletude já é física, não há mais nada a fazer. Nunca ouvi falar em implante de prepúcio. E nunca ouvi falar em alguém que o desejasse. A verdade é que deve ter doído muito. Devo ter me assustado bastante com aquele tanto de gente comendo e bebendo de graça (onde tem comida e bebida de graça e dor alheia, tem judeus de sobra, principalmente aqueles parentes que provavelmente só apareceram no meu brit-milá e no meu bar-mitzvá). Observavam a mim e ao meu pipiu original. Tão pequenininhos nós dois... Pelo menos um deles cresceu (e nem foi muito). E ainda molharam meu bico no vinho para me ludibriar. In vino veritas. logo depois, literalmente, me castraram. A castração, plagiando por antecipação as teorias freudianas, era de fato a verdade. Alguns psicanalistas extremistas consideram o rito do brit-milá como automutilação do povo judeu e seria essa uma das explicações para o antissemitismo. Eu não sei de nada, mas desconfio de muita coisa. Não me lembro de nada. aqui já me inseria na história. Na história de Abraão e seu pacto com Deus. Na literatura medieval judaica, com a invenção de Lilith e dos dibouks. A minha própria história começava a copiar a literatura. Podia encontrar em mim os primeiros sintomas do complexo de Portnoy. Fascinante. que a história tivesse copiado a história já era suficientemente assombroso; que a história copiasse a literatura era inconcebível. Mas, mesmo assim, a minha história continuava.
Já o outro útero que sempre me protegeu – este sim, onisciente, onipresente e onipotente – eram a Mamãe e o Papai, as pessoas mais inesquecíveis que conheci na vida. deviam ser um útero feito daquele material do qual só a caixa preta dos aviões é fabricada. tudo sabiam, tudo podiam, tudo pensavam e acredito que eram capazes até de adivinhar todos os meus pensamentos, os mais íntimos, mesmo sem o conhecimento da cabala e sua devida manipulação das letras sagradas. Seriam meus pais seguidores de tzinacan e conheceriam a escrita de Deus? Seriam eles personagens literários? Fantasia? Realidade? Realismo fantástico?
Ainda outro útero me protegia. Ou deveria me proteger. Era bem maior, mais amedrontador e compartilhado com muitas outras pessoas: a escola judaica."
- Via Estadão -

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