quinta-feira, 20 de março de 2014

Tirannys Melancholicus entrevista: Cresceu o guri cantor de "Preta Pretinha"

Vamos começar pela sua origem. Sei que você é cuiabano. Seus pais também são? Gente de quem você é?
Sim, sou cuiabano, filho de mãe descendente de italianos radicados no Espírito Santo, os Detoni, e de pai cuiabano, de família cuiabana com ascendentes em Poconé, Livramento, os Moraes.

Puxe pela sua memória e nos fale das suas primeiras experiências musicais, desde a mais tenra infância. Se quiser, pode começar pelas cantigas de ninar...
 Minha casa sempre teve música. Desde que me entendo por gente ouço música, hábito cultivado por meus pais que compravam LPs com frequência. Minha mãe, mais próxima da cultura e do hábito de escutar música que meu pai, gostava de nos cantarolar canções em casa vez por outra. Minha família mais próxima me diz que eu gostava de cantar a canção Preta Pretinha, gravada por Moraes Moreira no LP dos Novos Baianos, nos idos de 1970, década que nasci. Minha casa tinha vitrolas e eu gostava de escutar os LPs com minha irmã, Maria Angélica. Cresci ouvindo Doces Bárbaros, Novos Baianos, Secos e Molhados, Elis Regina. Ia nas férias de verão a Vitória, no ES, onde morava (e ainda mora) boa parte da família de minha mãe. Minhas tias, grandes apreciadoras e consumidoras de música, estavam sempre atualizadas com o que havia de mais recente na MPB. Novos LPs de Caetano, Chico, Gil, Milton, Gal e afins, estavam sempre disponíveis, tocando nas vitrolas.

Quando foi que a música entrou pra valer em sua vida e com que idade você decidiu que sua profissão seria a atividade musical?
A música entrou de vez na minha vida quando fiz concurso para o Coral da UFMT, em 1992. É aí que se iniciam minhas atividades como músico profissional, pois comecei efetivamente a ganhar dinheiro com a música, o canto coral era meu ganha-pão em Cuiabá, meu primeiro emprego. Tinha 21 anos.

Você é cantor e compositor. Como foi, ou está sendo a sua formação. Dirias que é mais autodidata do que acadêmico, ou ao contrário? E quais sonoridades e literaturas (e talvez outras artes), e artistas; te influenciam e/ou dialogam com sua criação e performance?
Minha formação, ao longo da vida, foi, geralmente, empírica. Penso que sempre fui mais autodidata que acadêmico. No período que trabalhei no Coral da UFMT, frequentei muitos cursos de formação em regência, em canto, em técnica vocal, em arranjo vocal, em composição, mas foram cursos de pequena duração oferecidos em oficinas espalhadas pelo Brasil em alguns períodos do ano. Também frequentei um curso de especialização em Música Brasileira oferecido pelo Departamento de Artes e pude obter o título. Somente quando me mudei para o Rio de Janeiro em 1999, o fiz para que pudesse ingressar numa faculdade, e pude ter contato com a música como formação acadêmica. Me formei em 2009 Bacharel em MPB pela UNIRIO.
O exercício do canto e da composição somam esses 22 anos de profissão, 10 deles como cantor e regente do Coral da UFMT. Ao longo desse tempo meu contato com as obras de artistas renomados da MPB e também com os da música erudita (que aprendi a apreciar tanto no Coral quanto frequentando o Grupo Anima de Teatro da antiga ETFMT, dirigido por Gilberto Nasser, de 1989 a 1998), me proporcionou acumular conhecimento e gosto pela coisa. Assim, imprimo na minha música toda essa influência que tive e que tenho estando em contato com as diversas manifestações musicais que povoam as terras cariocas. Amigos e seus trabalhos como compositores, cantores, instrumentistas, atores, bailarinos, me são fonte de inspiração. Isso aqui é um verdadeiro caldeirão cultural de cuja poção inspiradora bebo frequentemente.

Quantos anos Maurício Detoni tem de estrada e aproveite para citar alguns fatos marcantes da sua trajetória, como participação em grupos, parcerias, trabalho solo, cds, shows etc...?
Como dito, comecei minha carreira profissional em 1992 como cantor-servidor do Coral da UFMT, somando-se, portanto, 22 anos de profissão. Muitos momentos me marcaram nessa trajetória como a criação do grupo 4 Cantus em 96 e a gravação do nosso primeiro disco (o grupo existe até hoje em franca produção de shows, agora radicado no Rio), o encontro com Marcela Mangabeira (hoje minha melhor amiga e parceira na música até hoje) e a realização dos shows Caetanamente e Palco, como despedida de Cuiabá. Aqui no Rio destaco a participação em grupos vocais como o Garganta Profunda e o BeBossa Kids, com os quais gravei discos, e a gravação e lançamento deste meu primeiro CD solo.

O escritor mato-grossense Ricardo Dicke disse, certa vez, que ninguém era artista por inteiro, morando em Cuiabá, apesar de ele ter vivido muitos anos aqui e conseguido uma relativa projeção nacional. Quando e porque você decidiu se mandar para o Rio de Janeiro?
Decidi ir morar no Rio quando senti que Cuiabá não me ofereceria mais do que eu estava querendo naquele momento. Precisava alçar vôos mais altos na música, descobrir novos caminhos, pessoas, lugares, possibilidades, elementos esses que só um grande centro me proporcionaria. Há uma inquietude que move o artista, uma espécie de eterna "insatisfação", um anseio por maior reconhecimento de sua obra, uma vontade de expressão sem freios. Nesse sentido concordo com Dicke. O Rio de Janeiro, mais até do que São Paulo, é o lugar no Brasil para onde as pessoas vão em busca de reconhecimento e consequente projeção de sua arte. Para quem quer ter sua arte reconhecida nacional e internacionalmente, o lugar de "se fazer" é aqui. A grande mídia (entenda-se a Globo) se encontra aqui, os escritórios das principais gravadoras de discos estão aqui, artistas consagrados tem suas residências aqui, manifestações culturais das diversas regiões Brasil sempre encontram aqui núcleos de produção, desenvolvimento e expressão de suas culturas particulares. É nesse caldeirão diverso que escolhi viver.

Hora de vender o seu peixe. Fale sobre o CD que você vai lançar aqui e sobre o show que vai rolar na Casa do Parque. O que o público cuiabano pode e deve esperar dessas coisas?
O meu primeiro CD, "Maurício Detoni", foi gravado depois de dois anos de concepção, escolha de repertório, busca de uma identidade, etc. Estou muito feliz com o resultado, pois me reconheço nesse trabalho, ele é realmente a expressão de minhas idéias, meu modo de ouvir, de ver e de sentir a música. Trago nele um pouco de minha história de vida, pois incluí canções que compus ao longo desses 22 anos em homenagem à minha terra natal e canções de amigos e parceiros cariocas, a maioria inédita. Nele há uma trajetória, onde inicio falando de Mato Grosso, passo pela música carioca, urbana e encerro com um baião que fala desses muitos "Brasis" que povoam nossa música e cultura.
Para os shows na Casa do Parque vou levar as canções deste primeiro CD e canções do universo da MPB como sambas mais conhecidos e outros. Vou acompanhado de meu violão e convidei minha grande amiga musicista de primeira, Juliane Grisólia, para dividir o palco comigo e nos presentear os ouvidos com sua percussão. os shows serão dias 27 e 28, quinta e sexta próximos, às 21 horas. Lá haverá CDs disponíveis para quem quiser adquirir.

Mauricio, vamos ficar por aqui. O Tyrannus e seus leitores agradecem seu pronto atendimento à nossa entrevista e fica por sua conta as últimas palavras desta conversa.
Só tenho que agradecer ao carinho, respeito e prestígio a mim e à minha arte por parte da imprensa, amigos e tantos que, como vocês, nos permitem, por meios de sua divulgação, expandir e levar minha música a tantas casas e corações.

Aqui, algumas performances do artista
Ele é um artista cuiabano que precisou rumar para outras paragens em busca de mais visibilidade para a sua música. Mas está sempre de volta, matando as saudades e expondo seu talento na sua terra natal. Nas próximas quinta e sexta-feiras se apresenta na Casa do Parque, com o show de lançamento do seu primeiro trabalho solo, o CD que leva seu nome, acompanhado por Juliane Grisólia na percussão. Uma entrevista exclusiva com o cantor e compositor é o que o Tyrannus oferece aos internautas nesta edição. 

- Lorenzo Falcão, Tyrannus Melancholicus -

0 comentários: