domingo, 2 de março de 2014

Plataforma oferece chance a novos autores de criar histórias de forma colaborativa

É um problema para inúmeros escritores que buscam um espaço no mercado literário conseguir publicar seu primeiro livro. Mais difícil ainda é conseguir se destacar em meio a tantas boas ideias, que lotam as caixas de entrada das editoras. Pensando em oferecer um espaço para novos autores mostrarem seu talento e serem avaliados pelo público livremente, está no ar desde novembro passado o Narrativa Aberta.
Trata-se de um projeto de inovação colaborativa. O site oferece um argumento e os usuários sugerem ideias para cada etapa da narrativa, desde a introdução até o clímax. As mais bem votadas pelos leitores são incorporadas à história. A iniciativa é do designer campinense Lucas Pedro.
À IMPRENSA, ele fala sobre as origens do projeto e a sua visão do mercado editorial brasileiro para os novos talentos.
IMPRENSA - Como surgiu o Narrativa Aberta?
Lucas Pedro - A ideia veio, na verdade, de uma frustração com relação ao mercado editorial. Eu tinha uma ideia para um livro de ficção científica e comecei a enviar para editoras. E eu vi que, na realidade, o mercado é muito fechado. Você envia sem saber se vai ter um retorno, se alguém vai ler e fica naquela esperança. E isso acontece com milhões de pessoas que tentam escrever alguma coisa.
Depois disso eu vi uma ferramenta colaborativa para projetos públicos, que tinha a mesma mecânica que o Narrativa Aberta tem hoje. O site lança uma proposta de melhoria de serviços públicos, “como melhorar os serviços dos postos de saúde da cidade”, por exemplo. Aí as pessoas enviavam as propostas e as mais votadas seriam encaminhadas [ao governo]. Chama-se “processo de inovação aberta”.
Nessa eu pensei: "porque não fazer isso com narrativas, com histórias?". Assim, as pessoas que gostam de escrever, podem ter uma oportunidade de mostrar o talento, a capacidade que elas têm, para qualquer um ver.
Existem restrições quanto a gêneros ou à criatividade dos escritores ou é totalmente livre?
A gente tem procurado deixar completamente aberto, mas já tivemos problemas, por exemplo, de pessoas usarem nomes de personagens reais, como jogadores de futebol. Essa passou a ser a única restrição que a gente tem, porque não queremos ter problemas. Fora isso, não tem restrição nenhuma. Houve, por exemplo, uma proposta de uma pessoa que quis escrever sobre um caso de estupro! Foi ficando meio tensa essa primeira narrativa que a gente lançou. Mas está dando certo por enquanto.
O que acontece com os textos uma vez que a história é concluída? Terá publicação impressa?
Inicialmente, a ideia era simplesmente publicar no próprio site, deixar somente online e premiar o escritor mais pontuado em todas as etapas com um livro. Só que, como a gente está num processo de enquadrar o projeto nas leis de incentivo do governo, estamos pensando em retirar essa ideia de premio e publicar, no final, quando a gente formar umas 10 narrativas, talvez, um livro mesmo.
Já houve parceria com alguma editora nesse sentido?
Ainda não. E isso é uma coisa que eu me surpreendi negativamente. Eu entrei em contato com mais de 50 editoras. A parceria seria perfeita, entre um projeto desse e as editoras. Mas não tem retorno! Você não consegue nem um "oi”, “que legal", nada! Você manda para os e-mails do site e é como se fosse para o nada. É um problema.
O que você acha que pode melhorar nessa situação do mercado editorial com relação a novos autores?
Muitas editoras mantêm um discurso de que são abertas, mas não é verdade. As pessoas mandam as propostas de livros e, na verdade, o que a gente percebe é que eles estão caçando pessoas que já tem nome. Com a internet, temos formas de criar mecanismos para que mais pessoas publiquem livros, mais pessoas mostrem que têm capacidade de escrever também. Isso já está acontecendo lá fora com muito mais força. Muito mais gente escrevendo, vivendo de escrever livro.
Acho que as próprias editoras poderiam criar mecanismos em que, talvez, o público avaliasse os aspirantes a escritor. Como é a iniciativa do Narrativa Aberta, do próprio publico criar seus ídolos ali. Se gostar de um autor, acompanhá-lo… Não deixar só para as editoras fazerem essa filtragem, até porque elas não dão conta. Se você entrar na página de envio de originais das editoras, a maioria delas fala a mesma coisa: "são muitos manuscritos enviados, temos uma fila de um ou dois anos para avaliar...". É um modelo antigo num mundo novo.
- Portal Imprensa -

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