quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Roberto Boaventura Sá - Presentes de 2013

Este é o penúltimo artigo que escrevo este ano. Na linha das retrospectivas, deixarei a outros a exploração de fatos de 2013, como as mortes na boate Kiss, as corrupções, a justa e didática prisão dos mensaleiros de Lula/PT, a vinda do papa, os problemas/mortes nas obras da Copa, a conquista da Copa das Confederações pela Seleção Brasileira, a violência nossa de cada dia, com destaque à brutalidade de polícias militares, o sumiço de Amarildo, a matança familiar que um menino de doze anos cometeu, a morte de Mandela... Livre de tais temas, mas preso ao espaço de um artigo, pontuarei algumas coisas que vi no campo das artes.
Começo pela TV. Na SescTV, assisti a um vídeo intrigante – “Corpo a corpo” –, baseado no poema “O que se odeia no índio”, de Reynaldo Jardim.
Na conclusão do vídeo-poema – que tenciona uma questão de nossa vida colonial – o que se odeia no índio não é “ocupado lugar” por ele, mas tudo o que o configura como um ser nascido à liberdade e ao harmonioso contato com a natureza. Logo, o que se odeia no índio é “o puro animal que nele habita”, é seu “andar sem ruído”, é “a eugenia nítida do corpo erguido contra a luz do sol”, “...é a permanência da infância// E a liberdade aberta”.
Também vi como positivo o prêmio internacional que a Globo obteve por conta de “Lado a Lado”, uma telenovela inteligente. A cada capítulo, enfatizando a virada do século XIX para o XX, eram ministradas verdadeiras aulas de história do Brasil, de cidadania, de arte ...
Em âmbito local, destaco o show, no qual a Orquestra Sinfônica e o Coral da UFMT prestaram tributo ao canto lírico italiano. Ao ar livre, os cerca de 5 mil espectadores se emocionaram.
Também destaco o show de Deise Águeda cantando Paulo Cesar Pinheiro, autor, dentre tantas, de “Viagem” e “Canto das três raças”. Foi gratificante ver o profissionalismo dessa nossa artista.
No teatro, enfim, pude ver “Cidade dos outros”, apresentada no anfiteatro do Sindicato dos Docentes/UFMT. Na peça, já premiada nacionalmente em 2008, as talentosas atrizes Juliana Capilé e Tatiana Horevitch, de Cuiabá, interpretam duas personagens sem identificações nominais, o que facilita a identificação de qualquer um de nós com ambas. Por meio dessas, o texto nos convoca a reflexões hodiernas de nossas existências, geralmente, tão desconexas quanto miseráveis, em uma contemporaneidade tão esfacelada quanto individualizante.
Assim, a prisão e a futilidade pela busca de uma fortuna, que só viria pela obsessão dos jogos de loteria, realizam – apenas no campo dos sonhos – anseios de uma vida burguesa. Tais comportamentos, paradoxalmente, casam-se bem à situação de acoplagem das personagens a uma enorme máquina, que as prende por meio de um trabalho incessante e repetitivo, como já denunciara Chapplin, em Tempos Modernos.
Ainda no teatro, vi “A Santa Joana dos Matadouros”, de Brecht. O excelente Grupo de Teatro Experimental de Alta Floresta, sagaz e de forma engajada, entendeu que poderia trazer aos palcos de hoje uma peça escrita entre 1928 e 31. Sua atualidade, além do processo de exploração do trabalhador, em sociedades capitalistas, está em desnudar os meandros dos negócios, sejam eles de religiosos e/ou de empresários. Para isso, exploram-se a focalização do ludíbrio e da alienação impostos pela religião, bem como as artimanhas dos monopolistas do gado e da carne. Só pra lembrar, Mato Grosso é o estado de maior população bovina do país. Quanta pertinência!
Compartilhando com todos, esses foram meus destaques de 2013.
ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT.

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