quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sistema Fora do Eixo: Vamos avaliar o modo clientelista de defender uma tese

 
Redes culturais: desafio à velha indústria da cultura
Por Ladislau Dowbor - Redistribuído por Transparência Fora do Eixo

    A entrevista de Bruno Torturra e Pablo Capilé, no Roda Viva, focando o sistema inovador de jornalismo Ninja, é particularmente importante. Não pela celeuma criada, mas pelas janelas e desafios que abre. Aproveitamos a discussão para as pessoas entenderem melhor um conjunto de atividades de produção e acesso cultural no país. Interessante também o fato da entrevista ter gerado tanta controvérsia, com o problema do financiamento superando a visão das oportunidades abertas. Estamos na era digital, da conectividade planetária, mas carregamos uma herança de sistemas de produção cultural e jornalística essencialmente controlados por gigantes da intermediação, a chamada indústria cultural e o oligopólio da mídia. Adotaram tecnologias digitais nas imagens, mas como cultura organizacional seguem na era analógica. O pano de fundo, é que hoje, com as novas tecnologias tanto de produção como de divulgação de conteúdos, abriram-se oportunidades de sistemas radicalmente descentralizados e em rede, o que afeta os gigantes verticalizados de intermediação. Os que produzem conteúdos não precisam mais esperar para serem dos poucos selecionados pela grande mídia ou pelo oligopólio da música. A gente não vai mais se ver só na Globo.
    O que era para ser entrevista, virou um espaço muito interessante de contraste entre duas culturas, o jornalismo comercial dos entrevistadores que insistiram em chamar as suas atividades de “jornalismo histórico”, e o jornalismo descentralizado e colaborativo que emerge. Os entrevistados, por sua vez, se referiam ao sistema comercial mais simplesmente como “velho” e “analógico”, frente ao universo digital que se descortina.
    Toda a primeira parte do Roda Viva se concentrou na veiculação da profunda suspeita dos entrevistadores sobre “de onde vem o dinheiro”, sugerindo naturalmente fontes escusas, falta de prestação de contas e semelhantes. É natural que esta geração da mídia, que trabalha com altos custos e equipamentos sofisticados, não entenda que nesta era em que qualquer pessoa com umsmartfone pode registrar eventos, e tem inteligência e formação para sugerir interpretações – talvez com menos competência profissional mas seguramente com maior diversidade de interpretações – o sistema se desloca. O que não se entende é que sequer tinham conhecimento de moedas alternativas, das formas de funcionamento dos processos colaborativos não monetários, de toda uma economia da cultura não comercial que se desenvolve e já tem anos de experiência. O sistema Ninja não apareceu com as manifestações, já tem 10 anos. Foram precisas as manifestações para que esta imprensa se dê conta que o Ninja existe.
    O sistema de financiamento da rede Ninja e da rede Fora do Eixo não constitui nada de revolucionário, existe em milhares de experiências pelo mundo afora e no Brasil, e consiste em reciprocidades baseadas em uma moeda contábil, ou simbólica, que pode ser representada por horas de trabalho, A diferença é que não se paga juros aos bancos, o que torna tudo mais barato, e facilita as trocas, ao se tirar os intermediários de cena. No caso mencionado no Roda Viva, trabalham com pouco dinheiro oficial (reais), e com muito dinheiro equivalente (cards), em que um grupo que realiza um show apoiado no esforço de organização de outro, por exemplo, passa a assegurar uma contribuição correspondente em reciprocidade em outro local ou cidade, expressa emcards, mas sem necessidade de dinheiro. Assim, o pouco dinheiro que arrecadam em reais, tem efeitos multiplicadores dezenas de vezes superior. O sistema tem toda lógica em economia, mas não entra na lógica de quem não está familiarizado, e fica à procura de dinheiro escondido. O Brasil aliás já tem103 bancos comunitários, que emitem moedas alternativas, processo autorizado pelo Banco Central, e que deveria ser do conhecimento elementar na cultura de jornalistas. O Banco Palmas, com a sua moeda “palma”, comemorou há meses os seus 15 anos, a USP publicou um livro comemorativo com pesquisas sobre o funcionamento desta forma de organização econômica (veja o livro em http://dowbor.org/livros-em-colaboracao/).
    É interessante confrontar esta lógica econômica colaborativa e democrática com a lógica da mídia comercial. Tudo que pertence à indústria cultural e midiática, inclusive os noticiários e os jornais e revistas em papel, são essencialmente financiados por publicidade, e se trata de recursos extremamente elevados. É um império econômico. As empresas de publicidade que financiam a mídia são por sua vez financiadas por grandes grupos econômicos, como bancos, empreiteiras, grandes redes de intermediação comercial, montadoras, a grande indústria farmacêutica e semelhantes. Há muito pouca participação de pequena e média empresa, ou por exemplo da agricultura familiar que é responsável por três quartos do alimento que chega à nossa mesa. O dinheiro gasto pelas grandes empresas em promoção e propaganda é incluído na planilha de custos, e incorporado nos preços, que são pagos por nós. A TV aberta só parece gratuita porque já pagamos ao comprar os produtos. Quando ouvimos na TV que tal programa nos é gentilmente oferecido pelas casas que têm total dedicação a nós, já sabemos quem paga a conta.
- ...continue lendo aqui -

0 comentários: