sábado, 5 de outubro de 2013

O rádio no Brasil e em Cuiabá

    O cientista estava tomado de largo entusiasmo, quando constatou que ondas hertzianas do rádio chegavam à distância. Discursou no dia 20 de abril de 1923, inaugurando a primeira rádio do Brasil, no Rio de Janeiro: “Todos os lares espalhados pelo imenso território brasileiro receberão livremente o conforto moral da ciência e da arte. A paz será realidade entre as nações. Tudo isso há de ser o milagre das ondas misteriosas que transportarão no espaço as harmonias. Que incrível meio é o rádio para transformar um homem em poucos minutos, se o empregarem com alma e coração”.
    Era a voz de Edgar Roquette Pinto, médico, antropólogo e professor, considerado o pai da radiodifusão brasileira. De espírito irrequieto, demonstrou em 1912 na Missão Rondon a sua vasta cultura, no desempenho de tarefas na etnografia, na sociologia, na geografia, na arqueologia, na botânica, na zoologia, na fotografia. Em 1926, como diretor do Museu Nacional, conseguiu organizar preciosa filmoteca de dados científicos.
    O dia do rádio no Brasil é celebrado na data do seu nascimento em 25 de setembro, vindo à luz em 1884. Não conseguiu com facilidade a realização do seu projeto de organizar a rádio Sociedade do Rio de Janeiro, tal como um clube; os associados mantinham a emissora.
    Passados alguns anos, em 1936 Roquette Pinto faz doação da rádio ao patrimônio federal, transformada na Rádio Ministério da Educação. Cientista de pura formação humanista sonhou sempre fosse o rádio um instrumento a serviço da cultura do povo, entristecendo-se com a utilização do tempo para a comercialização.
    Chegou à televisão, quando organizou a primeira demonstração em circuito fechado em 1929. (A televisão no Brasil foi inaugurada em 18 de setembro de 1950 em São Paulo com a TV Tupi, por iniciativa de Assis Chateaubriand).
    Deixou indelével lema para a Rádio MEC: “Pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil”. Em 1934 fundou a Rádio Municipal do Rio de Janeiro, passando em 1946 a ter o nome do fundador.
    Por todos os tempos em setembro o Dia do Rádio traz à memória o evento primeiro da inauguração da rádio numa sala de física da Escola Politécnica, quando experimentalmente utilizou-se de um equipamento de radiotelegrafia trazido pela Western Elétric dos Estados Unidos. Neste 2013, são decorridos 90 anos do rádio no Brasil; em 2014, 130 anos de nascimento de Roquette Pinto (1884) e 60 anos de falecimento (18 de outubro de 1954).
    Na longínqua Cuiabá distante da orla praiana, ligada às metrópoles descendo o rio Cuiabá ou mais tarde pelas compridas estradas de terra, apenas o radioamadorismo ou a telegrafia faziam as precárias comunicações. Vivendo entre nós o bom mineiro de Nepomuceno, cuiabano adotivo João Jacob, o Jercy Jacob na intimidade, professor, poeta, músico, compositor e técnico em radioeletricidade, em 1939 montou um pequeno radiotransmissor levando as ondas hertzianas aos poucos receptores da cidade, adquiridos às pressas no Rio de Janeiro.
    Ocorreu em 15 de outubro de 1939 a primeira experiência de emitir som irradiado, sem nenhuma publicidade, confirmada a sintonia no distrito de Coxipó da Ponte pelo comerciante Totó Dorileo. Pequeno transmissor e torre estavam montados no quintal da casa de Zulmira D’Andrade Canavarros, a diretora artística, Jercy Jacob, o técnico e Juvenílio de Freitas, o primeiro locutor.
    Se devamos celebrar em 2019 os trezentos anos de Cuiabá, tenhamos um quinquênio de comemorações a partir de 2015. A programação inevitavelmente encerrará fatos como da primeira rádio em Cuiabá, que em 2014 completa 75 anos de existência, quando será rememorada esta relíquia histórica: em dezembro de 1939 a incipiente rádio fora denunciada como clandestina, mas Júlio Müller, no governo do Estado, declarou-a imediatamente de utilidade pública em fase experimental. Este ato fez eclodir pronta resposta com a nascente Rádio A Voz d’Oeste em orações, lágrimas e Carnaval, e Nemésia Loureiro cantou Joia do Carnaval de 40 ao som do violão de Décio Gama, e Nino Ricci solou Ondas do Danúbio ao bandolim.
    Certamente as Instituições culturais do Estado, outras de letras e artes, as rádios e televisões da cidade, a UFMT, a mídia, com motivações pedagógicas prepararão a juventude e o povo para o tricentenário de Cuiabá.

*BENEDITO PEDRO DORILEO - advogado e ex-reitor da UFMT

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