segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Bar rock carioca tem história contada em livro: “Bukowski - Histórias Que Não Deveriam Ser Contadas”

Um DJ é surpreendido pela loura misteriosa que, após uma noite de muita música, volta ao bar no fim da madrugada só para ter uma noite de sexo. Um homem ganha fama se passando por funcionário e, até, pelo dono do bar. Um anão que só fala com mulheres e um roqueiro que vira as noites dançando e nunca se lembra de como voltou para casa. O clichê sexo, drogas e rock n'roll talvez seja a melhor definição para o Bar Bukowski, que vai ganhar um livro em janeiro para comemorar seus 15 anos.
Com texto de Bernardo Vilhena, poeta e compositor de músicas como 'Menina Veneno' e 'Vida Bandida', o livro reúne histórias reais que aconteceram ao longo desta década e meia com alguns dos clientes mais fiéis do local. Bernardo, que não frequenta o bar e, até pouco antes de começar o livro, não conhecia seus donos, usou o ponto de vista dos personagens que fizeram parte da história do Bukowski para descrever a passagem dos anos, mudanças de administração e também de locação. Foram quatro casas diferentes desde 1997.
- Foram mais de 60 horas de entrevistas com mais de 60 pessoas em três meses de trabalho. Na verdade, eu não quis que ninguém me contasse o que era, eu queria ter essa visão através das histórias e dos relatos que os próprios clientes iam me contando - disse Bernardo, que chegou à conclusão de que o local é quase como o backstage de um show. - É um ambiente muito familiar, onde todos são estrelas, inclusive os funcionários. Há uma liberdade, uma loucura e um desejo de sexo que é latente.
A mudança que mais chamou a atenção do escritor, no entanto, não foi do endereço do bar, mas a da atitude das mulheres. Durante sua pesquisa e nas entrevistas, ele percebeu que dentro do ambiente do bar elas passaram a assumir um papel de predadoras. E, nas histórias, ele deixa bem claro que não há diferenciação entre as atitudes da mulher e do homem. Todos bebem muito, usam drogas e fazem sexo, sem marcação de papel:
- Acho que é uma coisa da geração. Naquele ambiente não há preconceitos, não há culpa.
Vários personagens povoam as páginas do livro, mas alguns ganham mais destaque, como "Ricardo", identificado por Bernardo como o cliente "01". Ele é o fio condutor dos pequenos contos, que foram agrupados em capítulos que correspondem a cada endereço diferente que o bar teve. Outro personagem que está sempre presente é o "Kara", o dono do bar, que nunca é identificado, mas que aparece em diversos momento, e nas situações mais divertidas.
- O Kara, com K mesmo, que em grego é o cabeça, é um dos donos do bar, que trabalha o tempo inteiro para que ele seja mantido. Ele não identificado, até mesmo para combinar com personalidade do Pedro, que é uma pessoa que prefere não se identificar normalmente, não ficar em evidência, e se diverte inclusive quando alguns clientes se passam por ele - conta Bernardo.
O "Kara", nesse caso, é Pedro Berwanger, um dos fundadores e dono do bar. Bastante tímido, até mesmo para falar por telefone, Pedro admite que prefere ficar na surdina. Ao falar do bar, ele se coloca dentro de um grupo de pessoas que fazem ele funcionar, e não como o único dono.
- Na verdade é um bando de gente que mantém isso aqui. Quase o mesmo número de pessoas que trabalha durante a noite, trabalha durante o dia. São eles que mantém esse espírito de anarquia - diz Pedro.
Esse "espírito de anarquia", aliás, está presente durante todo o livro. Uma das histórias mais marcantes sobre o tema se passa numa festa com prostitutas organizada por funcionários após o expediente. O resultado foi uma batida de polícia, que por pouco não termina com todo mundo na cadeia. Apesar disso, ninguém foi demitido.
- Eu sei que isso não pode fazer, e é condenado por qualquer livro de administração, mas aqui funciona - afirma Pedro, que confirma a veracidade de todas as histórias, e conta que alguns relatos só foi ouvir agora: - São histórias muito boas, e que merecem ser contadas. Algumas, no entanto, eu nem conhecia. Todos ficaram empolgados para participar.
Poucas casas especializadas em rock no Rio
O Bukowski hoje faz parte de um universo pequeno de bares especializados em rock do Rio de Janeiro. Apesar do número pequeno, Pedro Berwanger reconhece que a procura é menor também:
- Acho que sempre vai ter uma minoria que gosta de rock, então é normal ter poucas casas do gênero da cidade. Até porque, não teria gente suficiente para encher mais do que isso. É um público muito específico - comenta .
Há duas semanas, o fundador de outra famosa casa do gênero morreu vítima de diabetes. Fábio Costa era um dos símbolos do Garage, a casa de shows localizada na Rua Ceará, na Praça da Bandeira, que existe desde 1988. O local foi fundamental para a difusão de bandas da cena underground carioca. Foi com Fábio que o Garage se tornou referência em música alternativa no Rio de Janeiro. A casa recebeu nomes como Matanza, Korzus, Marcelo D2, Planet Hemp e Los Hermanos.
Outro bar que também virou referência para os amantes de rock é o Empório, que há 20 anos funciona na Rua Maria Quitéria, em Ipanema. Apesar de não ter pista, o bar costuma ficar lotado.
- O Globo -

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