segunda-feira, 9 de setembro de 2013

"Qualquer um pode ser ninja"

Que organização em rede era aquela que se dizia independente e recebia dinheiro do governo federal via editais para se manter?

Começou com a atenção a um bando de jovens com câmeras de celular transmitindo as manifestações que pipocavam pelo País. Quem eram, por  que estavam ali e qual o papel do que faziam? Eram jornalistas? Deu no New York Times, El País e na Globo. O Mídia Ninja, que até então era um amontoado de likes no Facebook, começou a ter cara e nomes. Virou fato jornalístico.  No Roda Viva, Bruno Torturra, idealizador do Mídia Ninja, sigla para Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação, apareceu ao lado de Pablo Capilé, idealizador do Fora do Eixo, rede de produtores culturais e artistas, tentavam descrever o que faziam e como viabilizavam as transmissões. O Mídia Ninja passou a ser citado como braço jornalístico do Fora do Eixo e o Fora do Eixo passou a existir para o jornalismo. Que organização em rede era aquela que se dizia independente e recebia dinheiro do governo federal via editais para se manter? O que é uma organização em rede? Motivado por depoimentos de ex-integrantes do Fora do Eixo, mais páginas da imprensa nacional foram dedicadas ao coletivo cultural.  Desde os anos 1990, quando criou uma lista de e-mails para discutir o mercado independente brasileiro, Messias Bandeira, 47, relaciona-se com organizações em rede. Diretor acadêmico do Instituto de Artes e Humanidades da Universidade Federal da Bahia, pesquisador em comunicação, é uma das muitas cabeças que tentam entender os movimentos recentes e seus desdobramentos, entre eles a atuação do Mídia Ninja. Frontman da banda Brincando de Deus, o compositor percorreu o cenário independente brasileiro. Nesta conversa, Bandeira fala sobre Mídia Ninja,  rede e mercado de cultura no  Brasil.

O Mídia Ninja é jornalismo?
Muita gente vai reivindicar  quesitos de noticiabilidade, de técnicas da notícia, de tratamento de imagens, de um conselho editorial que certifique e chancele determinada produção de notícia. Mas há outros atores nesse processo que oferecem uma nova forma de mediação, que concorre diretamente com esses grandes meios e apresentam angulações diferentes. Essas estratégias de produção de informação têm um caráter amplo, de diversidade, e devem concorrer com os modelos antigos de apresentação. Estão em pé de igualdade com os grandes meios. A mesma tecnologia para acessar o New York Times e o Guardian funciona para acessar toda a blogosfera do Brasil. O Mídia Ninja produz informação e, em alguns casos, com qualidade superior, com espaço de opinião mais privilegiado, permitindo o contraditório.
Mas essa quantidade de versões do mesmo fato não pode gerar uma crise de credibilidade no leitor?
No limite, quem fará a seleção e estabelecerá os critérios de credibilidade é o indivíduo. É ele que consegue estabelecer critério de credibilidade, de escolha de mediadores. É um ambiente onde todos são produtores e consomem simultaneamente. Essa horizontalidade na  produção da informação vai exigir do indivíduo, do usuário dessas redes, critérios bastante seletivos de escolha da informação e dos seus canais. Isso não é uma novidade das redes digitais, mas elas potencializam um acordo mais rigoroso com os usuários. Ele não está isento de, eventualmente,  tornar-se um mediador desse processo. De tornar-se um multiplicador de informações e ter também o seu posicionamento questionado.

Você falou em produzir informação. Uma coisa é produzir informação,  outra é entregar essa informação. A curadoria não é importante para o leitor?
É preciso que fique claro, para os leitores, o que é notícia e o que é opinião. Isso é impossível, por conta da isenção do jornalista, porque ele está submetido ao seu repertório intelectual, a um processo de ideologização que é anterior à entrada no mundo do jornalismo, mas a isenção é um horizonte que se precisa seguir. E precisa ter esse pacto com quem nos lê ou assiste. Estar devidamente informado sobre os nossos interesses e escolhas. Nesses ambientes, é possível fornecer informação suficiente para se deixar claro o que é conteúdo jornalístico noticioso e o que é opinião. O fundamental é a atuação nesses ambientes.
Uma das discussões que se travaram nas últimas semanas dizia respeito à independência do Mídia Ninja, devido à sua associação ao Fora do Eixo, que recebe financiamento público. É possível ser independente  recebendo dinheiro público?

Determinadas políticas públicas foram fundamentais na constituição de modelos que se justapõem às estruturas tradicionais no mundo da política,  da cultura e da economia. Essa  independência tem um compromisso, com a sociedade civil, com os recursos públicos e com a esfera pública. Não se deve atender a interesses sociais, partidários e ideológicos na utilização desses recursos, mas isso não quer dizer que se deva fazer intervenções assépticas,  se isole do mundo e não  consiga atender a determinadas demandas sociais. As organizações que têm atuado no campo da cultura, da imprensa que se apresenta como outras vozes em relação aos veículos tradicionais, têm feito um trabalho fundamental de conectar pessoas,  construir redes de colaboração,  contribuir para  maior integração das pessoas na produção da informação.
- A Tarde -

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