terça-feira, 3 de setembro de 2013

Ninja tosco é combatente fraco

Vivemos tempos muito acelerados, de fato. Tempos em que uma reputação pode se construir e se comprometer no espaço de poucas semanas. Na coluna anterior, comentei sobre o fenômeno da Mídia Ninja e a urgência do telejornalismo tradicional em refletir sobre as suas práticas e seu papel social, que vão sendo ultrapassados. Agora quem está na berlinda é a própria Mídia Ninja, envolvida em denúncias de más práticas contra o seu mantenedor, o coletivo artístico Fora do Eixo.
Não vou entrar no debate sobre o Fora do Eixo, nem sobre os meios como financia a Mídia Ninja. É assunto que diz respeito aos interessados e às autoridades trabalhistas, fiscais e judiciais, para não falar dos incontáveis cidadãos que se digladiam em torno dele nas redes sociais. O que me interessa é compreender as características do modelo de produção jornalística proposto pelos ninjas e suas limitações, para que o projeto possa avançar.
Comunicação na era digital pressupõe multiplicidade de narrativas, interatividade e protagonismo do público, outrora apenas receptor, agora também emissor de informações. Essa é a lição que a Mídia Ninja dá ao país desde os protestos de junho. Como a repercussão de sua atuação é enorme, fomenta inúmeras experiências semelhantes, parte das quais se pode encontrar no portal Web Realidade. Tudo indica que elas só vão crescer e multiplicar-se.
Mas, se o projeto ninja está correto ao apontar os descaminhos da “mídia clássica” (expressão de Alberto Dines), ele erra ao desdenhar de práticas centenárias do jornalismo, que foram testadas e aprovadas por sucessivas gerações de profissionais. Práticas como, para começar, o rigor na apuração dos fatos e o cuidado na sua apresentação. Fazer jornalismo participativo, sobretudo online, transmitindo ao vivo a notícia que se desenrola em tempo real, exige enorme responsabilidade. Ponderação. Controle das emoções. Juízo crítico. Isenção. E, claro, uma linguagem educada, que possa comunicar-se com todos os públicos, e não chocá-los.
As boas intenções de ativismo midiático, pela transparência e pluralidade informativa, assim como a opção por um estilo informal, não podem justificar o uso de palavrões no ar. Nem o despreparo dos repórteres-narradores, que só produz redundância e baixa informação. Ou a desatenção dos cinegrafistas a regras mínimas de enquadramento, foco e estabilidade das imagens, que existem para favorecer a comunicação, e não para atrapalhá-la.
Os fins republicanos não justificam os meios toscos de produzir o “pós-jornalismo”. Muito menos o favorecem. Ninja bom é exímio praticante das artes de luta. Seja espada ou câmera a sua arma.

Gabriel Priolli foi editor executivo e diretor de redação de IMPRENSA entre 1987 e 1991. Hoje é produtor independente de TV. gpriolli@ig.com.br.

0 comentários: