domingo, 8 de setembro de 2013

Da primavera ao inverno

A insurreição twittada e a revolução 2.0 são tão pouco seguras como todas as outras o foram. Por Passa Palavra
Há dois anos atrás, quando publicámos os nossos primeiros artigos de crítica ao Fora do Eixo, a polémica nos comentários rapidamente chegou onde devia chegar e muitos leitores acusaram-nos de sermos arcaicos, de não termos dado conta de que a tecnologia digital mudara as coisas e que a revolução agora dispensaria o rancor e seria uma revolução 2.0.
E realmente era esse o centro do problema, porque nós nunca criticámos o Fora do Eixo por ser uma empresa. Vivemos no capitalismo, nada mais natural do que haver empresas e todos os dias surgem novas. Nós criticámos o Fora do Eixo por fingir que não é uma empresa. Estabelecemos que o era, desvendámos as relações internas e externas de exploração e o desenvolvimento de mecanismos fiduciários destinados a reforçar a esfera — no caso, o cubo — dessa exploração.
Passaram dois anos e isto parece ser hoje ponto assente. Relatos que em 2011 pessoas tiveram receio de divulgar circulam hoje amplamente, confirmando o que já havíamos denunciado e mostrando que as coisas são ainda piores do que mesmo nós imaginávamos. O Fora do Eixo está de tal maneira desmistificado que alguns dos seus defensores se limitam agora a negar que ele explore trabalho gratuito e que possa ser considerado uma empresa esclavagista, ou seja, no final das contas, defendem que ele é uma empresa como as outras.
Mas o que nos chamou a atenção nos comentários aos nossos últimos artigos sobre o Fora do Eixo é que não houve já quem nos viesse falar do fim do rancor e do surgimento da revolução 2.0. Não nos disseram agora que a revolução passou a ser twittada e que a democracia se instalou on line subtraindo o número dos não curti ao dos curti. Não nos disseram que a noção de um trabalho organizativo de base deve ser colocada no museu de antiguidades ao lado da máquina a vapor e que tudo o que existe no Facebook é real porque a realidade agora é o Facebook. Até as meninas e os meninos das acampadas se mantiveram calados, sem dizerem que fingir de Comuna é o mesmo que fazer uma Comuna. Por que será tamanho silêncio?
- ...Passa Palavra -

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