quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Uma pergunta e um convite para Pablo Capilé

O coletivo Mídia Ninja é a coisa mais interessante que apareceu no cenário jornalístico brasileiro nos últimos anos, sua cobertura dos protestos dos últimos meses é sem igual, seu modelo de financiamento coletivo é inovador, eles fazem o que a grande imprensa não sabe nem quer fazer, e são as únicas vozes nas ruas nas quais podemos confiar.
A Mídia Ninja é só o braço pseudojornalístico do Fora do Eixo, instituição que é ponta-de-lança do projeto de poder do PT para o segmento Cultura-e-Juventude, financiada majoritariamente por verbas públicas, gestada dentro do Ministério da Cultura na gestão Gil-Juca Ferreira, e organicamente integrada à uma inteligência popular-digital que trafega e trafica influência entre academia, ONGs, governo e - sim - a grande mídia.
A verdade está em algum lugar entre a visão rósea da vida e a teoria conspiratória da história. A verdade não veio à tona no programa Roda Viva de ontem, quando alguns baluartes da imprensa paulistana entrevistaram por duas horas as figuras mais importantes do Fora do Eixo e da Mídia Ninja, Pablo Capilé e Bruno Torturra. Nem virá de outras entrevistas, ou debates acalorados no Twitter. A verdade depende de uma informação que só o Fora do Eixo pode fornecer. A pergunta que não foi feita no Roda Viva, e precisa ser respondida, é: onde estão as prestações de contas do Fora do Eixo?
Pablo afirmou no programa que as verbas públicas são um percentual pequeno do orçamento do Fora do Eixo, menos de 7%. Se os documentos comprovarem isso, o Fora do Eixo é de fato independente. Você poderá questionar a qualidade das ações do FdE ou das coberturas da Mídia Ninja, mas não sua autonomia.
Se, diferente do que Pablo afirma, é dinheiro de governos municipais e estaduais, governo federal e empresas públicas que bancaram e bancam a maior parte do orçamento do Fora do Eixo, não há como o FdE, ou a Mídia Ninja, se autoproclamarem independentes ou manterem a credibilidade que conquistaram. Simples assim.
Uma pesquisadinha na internet revela prestações de contas em Cubo Cards, a moeda virtual criada pelo Fora do Eixo. Veja aqui. Nenhuma em reais, que é como os impostos são arrecadados, como verbas públicas são distribuídas, e como a rede FdE precisa, legalmente, fazer sua prestação de contas. Também revelou links com muitas pessoas elogiando o Fora do Eixo, e outras tantas criticando, principalmente músicos e produtores musicais. Há um link para o site do governo do Mato Grosso, em que Pablo Capilé é citado como suplente do Conselho Estadual de Cultura. Leia aqui.
Não tem nada errado em ser conselheiro de governo estadual, assim como não há pecado em uma empresa de comunicação ser financiada por verbas públicas. Aí está a TV Cultura, que inclusive merece orçamento e carinho bem maiores. Ou a BBC, ou a National Public Radio. Nos anos 80  as melhores revistas da França, Itália e Espanha eram parcialmente financiadas por fundos governamentais. E qual das grandes empresas brasileiras de comunicação não receberam financiamentos estatais, qual das grandes não embolsam grandes investimentos em publicidade governamental?
O problema é quando isso não é feito com transparência, para usar uma palavra cara ao Fora do Eixo. Há quem diga que o Fora do Eixo tem dezenas de CNPJs, e neste caso há que prestar conta de todos; e se for mentira, que se negue já, e vamos colocar um ponto final na boataria.
Semana passada publiquei aqui uma entrevista feita por e-mail com Bruno Torturra (você pode ler as respostas, publicadas na íntegra, aqui). Agora estendo o convite a Pablo Capilé. Que tal provar de vez a independência financeira, e apresentar todos os documentos que dêem conta das contas do Fora do Eixo, Pablo?
- André Forastieri -

0 comentários: