sábado, 24 de agosto de 2013

O Fora do Eixo sob o microscópio: uma visita à Casa FdE Minas

Em uma das recentes polêmicas que se espalharam pelo Facebook, me convidaram pra visitar uma das casas FdE e conhecer com meus próprios olhos. O FdE já é objeto de discussão e crítica na esquerda há uns bons anos, embora tenha sido só agora - após um artigo do Reinaldo Azevedo na Veja e a gloriosa entrevista pelos dinossauros da mídia no Roda Viva - que o assunto realmente atingiu o escrutínio público.
Eu topei de bom grado o convite pra ir visitá-los. Sinto que o FdE me tange bastante pessoalmente, por uma miríade de razões. Em 2011, quando emergiram as primeiras polêmicas sobre o FdE quando do artigo crítico do Passa Palavra, foi à filosofia Deleuze e Guattari (filtrada através de seus discípulos Hardt e Negri) que defensores do FdE recorreram para tentar defender a pertinência política de sua prática. Porém, como leitor de longa data desses autores, me é clara a contradição entre as frequentes exortações à prudência oriundas da dupla de filósofos, e o entusiasmo dos pró-FdE com o "novo", "digital", 2.0, como se novo significasse automaticamente "bom" ou "melhor". Se os inimigos da humanidade puderem, inventarão novas formas de dominação a cada dia... Algo já não cheirava bem aí.
O FdE clama ser um movimento social midialivrista, que é também uma rede de gestoras e produtoras de cultura, que busca também superar as velhas formas de ação política (consideradas 'rancorosas'). O que tão fazendo é de fato novo, senão em conteúdo, ao menos em forma; falta no meu vocabulário aquele conceito que possibilitaria amarrar tudo em uma única palavrinha.
Propõem a organização em rede, o afeto, a confiança, o compartilhamento de informações, o diálogo e a horizontalidade como soluções alternativas aos velhos modos de ação política. Olhando à distância, parece lindo, se pá um pouco "descolado" demais pra meus gostos anti-publicitários. Se eles tem uma formula de cooperativa e decisão horizontal que bem funciona, tenho todo o interesse do mundo em aprendê-la e mimetizá-la. Senão, é necessário denunciá-la pelo que realmente é.
Desde o início há razões pra suspeita; a ênfase de Pablo Capilé em números grandiosos e quantidades, que parecem esmagar qualquer possibilidade de crítica; a cobrança de que qualquer crítico 'faça uma proposta melhor' para ter sua crítica ouvida, isso assim de antemão sem que nem entendamos direito o que é o FdE; e, de forma geral, a aparente falta de vontade dos defensores de aproximar-se dos pontos específicos da crítica, preferindo ao invés disso disparar uma metralhadora de relatos saturados de sentimentalidade. Quando questionados quanto sua proposta 'revolucionária' se resumir à auto-organização dos gestores da cultura, respondiam enfatizando quão grandioso é colocar tantos jovens morando em comunidades, dividindo caixas coletivos e peças de roupa, tudo pela causa. (parece lindo, mas uma coisa não responde à outra). E que causa, mal me perguntem? Seriam duas: a "mídia livre", difícil de entender vinda de uma organização que depende tanto do mercado e do estado; e a causa da "cultura", o termo mais genérico possível - uma aula de introdução à antropologia já mostra que há mais de 20 acepções para esta palavra. Há um longo debate no século XX (partindo da escola de Frankfurt, batendo ponto no surrealismo e com os situacionistas) sobre a superação da arte como produzida no capitalismo, sobre o papel revolucionário da arte, sobre a diferença entre cultura e espetáculo. Tomando o objeto final - um festival como o Transborda - como exemplar do que a máquina FdE é capaz de produzir, eu sinto que ou bem todo esse debate foi ignorado, ou bem os produtos da rede FdE não são tão novos e revolucionários assim, sendo mais do bom e velho espetáculo. É só que dessa vez os gestores das leis de incentivos estão cooperando em rede, e que bom, mas não resolve nenhum problema a não ser o deles.
- ...continue lendo em Rota 32 -

Acecem
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