segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Mídia News: Músicos denunciam calotes de Pablo Capilé em Cuiabá

A rede Fora do Eixo (FdE), comandada pelo ativista Pablo Capilé, tem pendente uma série de dívidas com músicos, produtores culturais e empresas de sonorização de Cuiabá. A denúncia é do setor cultural da Capital.
Segundo artistas ouvidos pela reportagem, as dívidas foram contraídas na época em que a organização se chamava Espaço Cubo – coletivo cultural fundado em 2003, na capital de Mato Grosso.
Fundador do projeto que promove intercâmbio em produções culturais pelo Brasil, Capilé e seus parceiros receberam uma série de críticas, nos últimos dias. O grupo ganhou fama por adotar o que se convencionou classificar de "cultura do calote".
Em Cuiabá, o Espaço Cubo, que deu origem ao Fora do Eixo, teve problemas de pagamento com alguns dos seus principais parceiros. Um dos exemplos é o músico Rodrigo Lopes, dono do Estúdio Riff.
A Lopes, Capilé deve R$ 6 mil. “Até hoje, eu tenho anotado, item por item, os serviços que prestei ao Espaço  Cubo”, disse o músico, que recebeu a reportagem do Mídianews em seu estúdio, no bairro Boa Esperança, na sexta-feira (23).
Lopes explicou que a dívida consiste em vários serviços de sonorização, como aluguel de som para shows, ensaios de bandas e gravação de músicas.
De acordo com a parceria, as bandas filiadas ao Cubo ensaiavam e gravavam CDs e singles (disco com apenas uma música) no Estúdio Riff – um dos estúdios de rock mais conceituados de Cuiabá.
Por conta das dívidas, Lopes se desentendeu com Pablo Capilé e a parceria Riff/Cubo foi desfeita. O acordo não foi estabelecido em um contrato formal.
“Foi tudo de boca. Foi na base da confiança. Eu cumpri com a minha parte. E ele (Capilé) deixou de cumprir muitas coisas comigo. Mas, tudo é um aprendizado”, disse Lopes.
No entanto, o músico afirmou que não tem interesse de cobrar o valor. “Não vale a pena. Isso geraria muitos transtornos, pois eu teria que pagar advogado, arrolar testemunhas. Não estou afim dessa dor de cabeça”, explicou.
Outro grande parceiro da Fora do Eixo em Cuiabá era o grupo Bellsom – empresa de sonorização, palco e iluminação que atua há 20 anos em Mato Grosso.
Em meados de 2005, a empresa forneceu aparelhagem de som para os shows organizados pelo Espaço Cubo. Com a Bellsom, a organização de Capilé contraiu uma dívida de quase R$ 7 mil.
O valor já foi pago, mas o dono da empresa, Isidoro Gomes Filho, disse que foi um verdadeiro transtorno para receber pelos serviços prestados. “Essa dívida se arrastou por dois anos e foi paga na maior dificuldade”, afirmou.
Gomes relatou que, para pagar a dívida, o Cubo ofereceu uma Kombi que “nem estava funcionado”. “No final das contas, fui eu que tive que reformar todo o veículo”, completou.
Já a segunda parte do débito foi paga em Cubo Cards – moeda solidária que circulava dentro do coletivo cultural -. “Eu troquei esses cubos cards em uma papelaria, que, na época, tinha convênio com o Espaço Cubo”, disse.
Na troca, Gomes pegou móveis para o seu escritório como cadeiras, meses e balcões. “Agora, com relação à papelaria, não sei se eles receberam depois a grana do Cubo”, comentou o empresário.
Jogando com os sonhos
Quando entrou para o coletivo Espaço Cubo, os garotos da banda USROD sonhavam em fazer sucesso e viver apenas de música.
Capilé soube muito bem trabalhar em cima desse sonho. “Na época, a gente acreditava que o Cubo era a única saída para divulgar a nossa banda”, contou o vocalista Joubert da Silva, conhecido como Beto.
Dessa forma, o grupo foi convencido por Capilé a trabalhar de graça nos eventos do Espaço Cubo e, em troca disso, a banda seria contemplada com shows, cachês e gravações de singles. Mas, nada disso aconteceu.
Beto disse que o grupo ganhou o direito de gravar um single depois que ficou em segundo lugar nas prévias do Festival Calango 2007 – evento realizado pelo Cubo. “Mas, a gente nunca gravou a música”, afirmou o vocalista.
“Também houve muitas promessas de shows em eventos importantes e pagamentos de cachês. Na época, nós éramos adolescentes e acreditamos na lábia do Pablo. Mas, no final das contas, a gente trabalhou que nem trouxa para o Cubo e nunca vimos a cor do dinheiro”, desabafou Beto.
Depois da desilusão com o Cubo, a USROD não teve mais força para continuar e o grupo se desfez em 2008. “Cada integrante tomou o seu rumo”, disse Beto, que se formou em advocacia. “Hoje, eu levo a música mais como um hobby”, completou.
Quem também se sente enganada pelo Cubo é a estudante do curso de Propaganda e Publicidade, Fiama Bamberg.
Sentada próximo ao Museu do Índio, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Bamberg recordou que entrava muito dinheiro para o caixa do Espaço Cubo. No entanto, boa parte da mão de obra era voluntária. “Trabalhava nos eventos, mas eu nunca recebi grana do Cubo”, afirmou Bamberg.
Ela destacou que, durante o festival Calango, o Cubo costumava arrecadar R$ 50 mil em venda de bebidas e outros produtos de bar. “Falo isso por que, na época, eu trabalhava no caixa dos eventos e sabia o que entrava de dinheiro”, explicou.
Da época, Bamberg ainda guarda R$ 800 em Cubo Cards, que ela não sabe onde trocá-los, pois já não há em Cuiabá estabelecimentos que aceitem a moeda alternativa.
A universitária também possui notas promissórias e contas de energia e água da antiga sede do Espaço Cubo, que funcionava na Avenida Presidente Marques, no Centro de Cuiabá. Umas das faturas, por sinal, nunca foi paga, de acordo com a estudante.
Inferno astral
O produtor cultural cuiabano Pablo Capilé e sua organização Fora do Eixo vivem um inferno astral.
O FdE ganhou evidência depois que Capilé participou do programa "Roda Vida", da TV Cultura, para falar sobre as ações do Mídia Ninja – movimento que transmitiu os recentes protestos pelo país, por meio de tecnologias baratas, entre elas o celular. A entrevista foi no início deste mês.
Apesar do bom desempenho no Roda Viva, a entrevista de Capilé foi o epicentro que gerou uma série de denúncias contra ele e sua organização, que é alvo de questionamentos sobre o uso de recursos públicos em projetos culturais.
As acusações ganharam força a partir da cineasta Beatriz Seigner. Em seguida, a revista Veja produziu uma reportagem intitulada “O Ninja do PT”, que abordou a proximidade de Capilé com agentes do Partido dos Trabalhadores, entre eles, o ex- chefe da Casa Civil do Governo Lula, José Dirceu, condenado pelo STF como um dos principais cabeças do esquema do Mensalão.
Já o jornal Folha de S. Paulo mostrou a dívida com comerciantes e hotéis que o Fora do Eixo (na época, Espaço Cubo) contraiu em Cuiabá. A reportagem revelou que o débito com os credores é estimado em R$ 60 mil.
Outro lado
Responsável pelo setor financeiro da Rede Fora doEixo, Lenissa Lenza, do setor financeiro da Rede Fora do Eixo, disse que o coletivo nunca forçou a bandas em eventos ou aceitarem ser pagas com o card.
A reportagem também tentou falar com Pablo Capilé, mas a secretaria da rede Fora do Eixo informou que o produtor cultural não podia responder às questões, pois estava em viagem ao Norte do País.
"Sobre as bandas e produtores culturais afirmarem que o Cubo implantava um esquema "escravagista" com a bandas, que eram cooptadas para trabalhar nos eventos sem remuneração, o Fora do Eixo disse que nunca obrigou as bandas a tocarem nos eventos ou aceitar serem remuneradas com o card.
"As nossas condições sempre foram claras e pactuadas. Se houve falha no atendimento de algumas, é natural num processo descentralizado e cheio de precariedades. De qualquer maneira para regularizar qualquer pendência basta enviar um email pro cubocard@gmail.com que encaminhamos", afirmou Lenissa Lenza.
Com relação à dívida de R$ 6 mil com o estúdio Riff, do Lopes, Lenza informou que não tem esse débito mapeado. "Faltou o contato para que a gente conferisse e resolvesse", disse
Sobre a dívida com o Gomes Filho, proprietário da Bellsom sonorização, Lenza garantiu que a empresa recebeu tudo que foi negociando e acordado. "Inclusive, os cubo cards que ele recebeu foram utilizados", disse.
Sobre a dificuldade do Fora do Eixo em honrar os compromissos com os credores, Lenza afirmou que a organização realiza dezenas de projetos contínuos e poucos deles são patrocinados via poder público. “Sempre precisamos de recursos próprios pra garantir. E ainda assim restaram algumas dívidas”, destacou.
Com relação à universitária Fiama Bamberg, que possui R$ 800 em Cubo Cards, Lenza disse que o valor pode ser negociando pelo email: cubocard@gmail.com.
Quando ao fato de ela nunca ter sido remunerada, na época em que atuava no Espaço Cubo, Lenza disse que Fiama foi inserida como qualquer outro colaborador do coletivo. "Sem promessas de remunerações", completou.

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