terça-feira, 11 de junho de 2013

Guarde seu dinheiro, Tom Zé!

E a briga de Tom Zé contra o “Tribunal do Feicebuqui” terminou de forma melancólica.
Para quem não sabe, tudo começou há três meses, quando o compositor baiano gravou a locução de um comercial de TV de um famoso refrigerante. O anúncio era uma peça ufanista sobre a Copa do Mundo (veja aqui).
Nas redes sociais, o pessoal caiu matando em cima de Tom Zé: o acusaram de estar vendido ao capitalismo, ao imperialismo, aos dólares ianques e a todas essas bobajadas que aprendemos matando aula em DCE de faculdades.
Em resposta, Tom Zé criou um disco chamado “Tribunal do Feicebuqui”, com letras que ironizavam a reação dos revoltadinhos de Twitter. Em uma, diz: “Que é que custava morrer de fome só pra fazer música?”.
O episódio rendeu pelo menos uma frase antológica, do músico Lucas Lima, da Família Lima: “O mesmo cara que reclama que o Tom Zé tá ‘se vendendo’ pra Coca-Cola tá baixando música de graça na outra aba do navegador, tá fazendo carteirinha de estudante falsa pra pagar meia-entrada.” Boa, Lucas.
Infelizmente, Tom Zé resolveu se curvar ao tal tribunal, e anunciou que vai doar o cachê – R$ 80 mil – para a Sociedade Lítero-Musical 25 de Dezembro de Irará, sua cidade natal.
Acho que Tom Zé pode fazer o que quiser com o dinheiro. Se quisesse queimá-lo em praça pública, ótimo. Só fico decepcionado que um artista tão combativo tenha se rendido ao patrulhamento virtual. Não esperava isso de Tom Zé.
Foi melancólico ver um artista tão importante quase pedindo desculpas por estar trabalhando e ganhando dinheiro.
Será que o velho brigão tropicalista não percebeu que a rede social é o palanque dos desocupados? Que cinco pessoas, munidas de um computador e todo o tempo livre do mundo, se fazem passar por cinco mil?
Quem acompanha o blog sabe que sou contra a realização da Copa do Mundo no Brasil. Já reclamei aqui de um comercial de cerveja que chamava os críticos da Copa de “pessimistas”. Mas isso não quer dizer que Tom Zé não tenha o direito de trabalhar para quem ele quiser. A empresa que o pagou é privada e pode gastar o dinheiro dela como bem desejar.
Ao anunciar que não ficará com o dinheiro, Tom Zé, um artista que já sofreu com a censura estatal, passa um recado temeroso: o de que patrulhamentos virtuais funcionam. Triste.
- Adre Barcinski -

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