sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

"Mensalão, o musical" - por Nelson Motta

Com grandes espetáculos, cenários luxuosos, elencos competentes e salas lotadas em longas temporadas, os musicais se tornaram o sucesso do momento no teatro brasileiro. Em tese, qualquer tema pode inspirar um musical, bastam boas músicas e letras e uma historinha para costurar tudo. Até o mensalão daria um musical.
A abertura seria a cena verídica, relatada por José Casado, do encontro de Lula e Zé Dirceu com Roberto Jefferson para celebrar o acordo do PT com o PTB. Com bons vinhos e largos sorrisos, eles chegam para o jantar festivo na casa de Jefferson. Depois do lauto repasto, dos risos e das garrafas vazias, passam à biblioteca para o café, conhaque e charutos.
Desabado no sofá vermelho, com o olhar já meio turvo, Lula é surpreendido por Jefferson, que começa a cantar acompanhado ao piano por sua professora de canto lírico:
“Eu sei que vou te amar/ por toda a minha vida eu vou te amar/ Em cada despedida eu vou te amar/ desesperadamente eu sei que vou te amar…”
Os convidados emudecem, a voz do barítono ressoa na sala, com gestos largos e interpretação grandiosa, olho no olho de Lula, Jefferson canta a música inteira com intensa emoção e termina com a voz embargada, enquanto uma lágrima furtiva rola pela face de Lula.
Trinta políticos de vários partidos, com ternos brilhantes, gravatas medonhas e cabelos acaju, invadem a cena cantando e dançando para Lula e Jefferson: “Ei você você aí/ me dá um dinheiro aí/ me dá um dinheiro aí.”
Segue dueto de Jefferson e Zé Dirceu em “Vou festejar”:
Jefferson: “Chora, não vou ligar/ chegou a hora/ vais me pagar/ pode chorar, pode chorar.”
Dirceu: “É o teu castigo/ brigou comigo/ Sem ter por quê.”
Jefferson: “Eu vou festejar/ vou festejar/ o teu sofrer/ o teu penar.”
Os dois juntos: “Você pagou com traição/ a quem sempre lhe deu a mão.” (bis)
Dirceu canta “Segredo”, de Herivelto Martins, para Jefferson: “Teu mal é comentar o passado/ ninguém precisa saber do que houve entre nós dois/ o peixe é pro fundo das redes/ segredo é pra quatro paredes/ primeiro é preciso julgar pra depois condenar.”
Joaquim Barbosa bate o martelo. Blackout.

Nelson Motta é jornalista. Participou ativamente da Bossa Nova. Ajudou no desenvolvimento do rock brasileiro, através de seu trabalho como jornalista e produtor. No final da década de 1980 foi responsável pelo lançamento de Marisa Monte e pela produção do festival Hollywood Rock. Idealizou e formatou programas como Chico e Caetano (1986) e Armação Ilimitada (1985). Fez palestras nas Universidades de Harvard (2000), Oxford (Inglaterra, 2005), Roma (2002) e Madri (2004) e em quase todas as capitais brasileiras.
É autor de mais de 300 músicas, sendo várias de sucesso. Motta já dirigiu espetáculos no Brasil e no exterior e produziu discos de grandes astros e estrelas da MPB tais como Elis Regina,Marisa Monte,Patrícia Marx (fase de maior sucesso em sua carreira), Gal Costa, Daniela Mercury, dentre outros.
Foi diretor artístico da gravadora Warner Music, produtor da Polygram e também participou do programa Manhattan Connection (canal GNT), com Lucas Mendes e Paulo Francis, entre 1992 e 2000.
Escreveu os best-sellers "Noites Tropicais" e "Vale Tudo - O som e a fúria de Tim Maia" (ambos pela editora Objetiva), que, juntos, venderam mais de 300 mil cópias; seus romances "Ao Som do Mar e à Luz do Céu Profundo" (editora Objetiva), "O Canto da Sereia" (editora Objetiva) e "Bandidos e Mocinhas", além do livro de histórias "Força Estranha" (2010 - editora Objetiva), que mistura ficção e realidade, permaneceram na lista dos livros mais vendidos por semanas. Também escreveu "Nova York é aqui" (editora Objetiva), "Memória Musical" (editora Sulina), dentre outros.

0 comentários: