quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Música fala mais alto em livro que tenta decifrar Jimmy Page

Há poucos astros do rock  como Jimmy Page. Talvez não haja mesmo nenhum como ele. Carismático, proficiente, criativo e virtuoso, o líder e guitarrista do Led Zeppelin costuma esconder sua personalidade atrás de uma espécie de névoa, por vezes transparente como um cristal, mas por vezes densa e obscura como  o lendário fog londrino.
Por isso, o antetítulo Luz & Sombra para o livro Conversas com Jimmy Page, do jornalista americano Brad Tolinski -  que a  Globo Livros publica no Brasil -, é mais que apropriado para este volume, que o autor define como "um olhar esclarecedor e definitivo sobre a vida musical de um gênio do rock'n'roll contado em suas próprias palavras".
Ao devorar suas 288 páginas, algumas  ilustradas com fotos p&b, você saberá  algo mais sobre o Page músico:  a formação precoce, a experiência fundamental nos estúdios, a amizade com Jeff Beck, o respeito por Eric Clapton, a passagem pelos Yardbirds e, sobretudo, os longos anos de êxito, glória e loucuras com o Led Zeppelin.
A própria condição de Tolinski como editor da revista Guitar World, uma publicação direcionada para o lado mais técnico, do instrumentista, propiciou uma perspectiva mais musical ao livro.  Assim, temos um Page generoso e franco em informações sobre os equipamentos que usou em gravações, os instrumentos preferidos, os detalhes na composição de muitas das canções emblemáticas do Zeppelin.
Ocultismo
Por outro lado, muito pouco será acrescentado sobre aquilo que todo fã obcecado quer saber: o homem por trás do mito, o Page fora dos palcos e dos estúdios, a vida pessoal, o pai de família, o colecionador de obras de arte e, acima de tudo, o fascinado por ocultismo.
Sobre este último tema, Jimmy Page preferiu se fechar, depois que a imprensa sensacionalista levou a extremos seu interesse pelo polêmico ocultista Aleister  Crowley (1875 - 1947). Apreciador de magia negra era o mínimo que se dizia sobre Page.
Para piorar, passaram a atribuir a este interesse uma suposta maldição que caiu sobre os integrantes do Zeppelin e que culminou com a morte do baterista John Bonham, selando o fim do grupo.
Assim, ele esclarece num dos raros momentos em que fala de ocultismo com Tolinski: "É uma infelicidade que meus estudos de misticismo e das tradições orientais e ocidentais de magia e tantra tenham ficado sob o guarda-chuva de Crowley. Sim, claro que eu li muito Crowley e era fascinado pelas técnicas e ideias dele. Mas lia várias outras coisas também". No final das contas, ele acaba colocando os estudos do oculto como um componente indissociável de sua arte.
Sexo, drogas e rock'n'roll - As famosas farras na estrada, um dos aspectos mais notórios do folclore zeppeliniano, também é tratado sem profundidade no livro. Ainda assim, o próprio Page trata de desfazer  alguns mitos. Diz, por exemplo, que Los Angeles não era a meca dos excessos hedonistas da banda, ao contrário do que se pensa: "...às vezes penso que o lugar em que nos comportamos pior foi no Japão", revela.
Sobre drogas, ele fala sem reservas. Conta, por exemplo, como uma vez se pendurou sobre o ar-condicionado da janela de um arranha-céu nova-iorquino, após um ataque de autoconfiança provocado por elas. Revela, ainda, como as aeromoças do avião particular do Led Zeppelin teriam faturado  um extra com a banda, catando, entre os resíduos das farras, notas de cem dólares usadas pela turma para cheirar cocaína.
Estas conversas, contudo, são raridades no livro. Na introdução, Brad Tolinski  fala de "regras  básicas e tácitas"  para se entrevistar Jimmy Page, e assuntos como ocultismo e outros extra-música estão submetidos a elas. Assim, Conversas com Jimmy Page são principalmente conversas de música.
Neste ponto, um dos méritos de Tolinski é dimensionar a real importância de  Page como produtor, algo que outros livros sobre o Led Zeppelin não vão muito a fundo. O autor mostra como os muitos anos do guitarrista como músico de estúdio ajudaram-no a dominar, e até inovar, as técnicas de gravação.
Page, por exemplo, é tido como um pioneiro na captação mais abrangente do som da bateria, pelo uso mais adequado da microfonação. A partir daí, vamos entender melhor porque o nome Jimmy Page aparece como produtor em todos os discos do Led Zeppelin.
É óbvio que Brad Tolinski, que demonstra conhecimento técnico de música, é um  fã de Jimmy Page, e isto está explícito na maneira reverente como ele aborda o guitarrista. Talvez exagere na dose, mas o fato é que em Luz & Sombra ele procura colocar Jimmy Page sob um holofote mais amplo, no qual qualidades provavelmente inimagináveis do músico vêm à luz.
No fim, a figura que ele projeta de Page é a de um vanguardista que inovou em vários aspectos da música, da produção, do comportamento e até da moda. Chega  a comparar sua inventividade com a  de um mito do jazz-fusion como Miles Davis. Bem..., talvez seja apenas rock'n'roll.
- Eduardo Bastos, A Tarde -

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