quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Leitura & Literatura

O ano em revista
2012 foi um ano agitado para o mercado editorial brasileiro. Depois de muitos boatos, reuniões sigilosas e acordos costurados lentamente, o país parece enfim dar início à era do livro eletrônico. Gigantes como Amazon e Google somam-se às redes locais na comercialização de novos aparelhos, passando a distribuir títulos em português que tendem a crescer exponencialmente nos próximos anos, ampliando as opções de suporte de leitura para o leitor brasileiro.

O ano em revista II
Junto a essas transformações tecnológicas significativas, o ano também foi marcado por um fenômeno editorial como há muito não se via. A trilogia “50 tons”, de E.L. James, correu o mundo com números assombrosos (no Brasil, 2,5 milhões de cópias vendidas), oferecendo uma mistura de erotismo de almanaque e fantasias adolescentes, que parece funcionar com perfeição num mundo de adultos infantilizados. Críticas à parte, obras como a trilogia da Sra. James são uma ferramenta importante para que possamos entender a nossa época, os desejos e fantasias coletivas que muitas vezes são captados com precisão por obras de ficção.

O ano em revista III
Em termos de lançamentos, o ano foi muito bom, tanto em títulos de ficção quanto em não ficção. Numa lista rápida, retomando obras tratadas pela coluna ao longo do ano, pode-se listar “A visita cruel do tempo”, da americana Jennifer Egan. Um painel de vários personagens que se cruzam, alterando-se como protagonistas ao longo dos anos 1970, passando pelos dias atuais e o futuro próximo. E que sofrem a ação desse visitante inquieto que nos acompanha ao longo de nossa trajetória – o tempo. Ele também é um personagem importante do novo livro do francês Michel Houellebecq, o magistral “O mapa e o território”, que conta a história de um artista plástico de sucesso ao longo de algumas décadas, numa crítica mordaz à mercantilização e à banalidade das sociedades atuais. Se em termos comerciais o mercado se assombra com uma trilogia, do ponto de vista artístico o eterno candidato ao Nobel, o japonês Haruki Murakami, produziu uma das mais instigantes obras ficcionais dos últimos tempos, “1Q84”, que será lançada no país em três volumes, e que já tem sua primeira parte disponível ao leitor brasileiro.

O ano em revista IV
O retorno das edições dos volumes da “Comédia Humana” de Balzac, organizada e comentada por Paulo Rónai, é um dos eventos mais importantes do ano, um colosso intelectual que por muito tempo, por questões contratuais, ficou afastado do mercado brasileiro. Entre obras não ficcionais, “No jardim das feras”, do jornalista, Erik Larson, foi uma das obras que mais me impressionou, resgatando a incrível trajetória do embaixador americano e sua família em Berlim, no momento da ascensão de Hitler ao poder.

O ano em revista V
Cabe ainda lembrar a longa lista de grandes autores falecidos em 2012, uma lista, diga-se de passagem, que serviria como um excepcional roteiro de leitura: Gore Vidal, Eric Hobsbawm, Millôr Fernandes, Carlos Fuentes, Ray Bradbury, a versão em papel da Enciclopédia Britânica, Antonio Tabucchi, Autran Dourado, Wislawa Szymborska. Personagens que farão muita falta no debate cultural, e que a seu modo deixaram marcas profundas na reflexão do homem ocidental nas últimas décadas.

- José Godoy, CBN -

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