sábado, 3 de novembro de 2012

Leitura & literatura

Livro do mês - "O amante", Marguerite Duras
Marguerite Duras tinha 70 anos quando o relato sobre sua juventude na Indochina francesa foi publicado em 1984. Essa obra tardia da autora que estreara na ficção em 1943, com “Os impudentes”, acaba de certa forma delimitando um novo espaço de recepção à sua obra. Extrapolando os círculos sofisticados e restritos que há décadas seguiam com atenção sua carreira, alcançando inédito sucesso comercial – um best-seller mundial, com tradução em mais de 40 países, vencedor do Goncourt, o mais importante prêmio literário francês.

Livro do mês - "O amante", Marguerite Duras II
A obra de Duras é caracterizada pela temática autobiográfica, e torna recorrente a experiência de sua família nos anos passados na ex-colônia francesa (o atual Vietnã). A mãe viúva, que investe as economias da família no cultivo de arroz, em terras de qualidade duvidosa. A proximidade angustiante da pobreza. A dupla de irmãos mais velhos e antagônicos. É ainda um olhar único, que se diferencia do registro europeu sobre a vida nas colônias. Duras o subverte, oferecendo o duro retrato de personagens cuja origem europeia não os protege do duro embate pela sobrevLivro do mês - "O amante", Marguerite Duras
Marguerite Duras tinha 70 anos quando o relato sobre sua juventude na Indochina francesa foi publicado em 1984. Essa obra tardia da autora que estreara na ficção em 1943, com “Os impudentes”, acaba de certa forma delimitando um novo espaço de recepção à sua obra. Extrapolando os círculos sofisticados e restritos que há décadas seguiam com atenção sua carreira, alcançando inédito sucesso comercial – um best-seller mundial, com tradução em mais de 40 países, vencedor do Goncourt, o mais importante prêmio literário francês.

Livro do mês - "O amante", Marguerite Duras II
A obra de Duras é caracterizada pela temática autobiográfica, e torna recorrente a experiência de sua família nos anos passados na ex-colônia francesa (o atual Vietnã). A mãe viúva, que investe as economias da família no cultivo de arroz, em terras de qualidade duvidosa. A proximidade angustiante da pobreza. A dupla de irmãos mais velhos e antagônicos. É ainda um olhar único, que se diferencia do registro europeu sobre a vida nas colônias. Duras o subverte, oferecendo o duro retrato de personagens cuja origem europeia não os protege do duro embate pela sobrevivência.

Livro do mês - "O amante", Marguerite Duras III
Seu estilo é uma espécie de manual de escrita literária, artística. Pode-se ler e reler suas páginas, seguidas vezes, sem que se encontre uma palavra em excesso, uma imagem mal construída, um clichê que tenha escapado à vigilância da autora. A perfeição do relato é tamanha, que ao leitor só parece sobrar uma conclusão: o que Duras narra não só aconteceu exatamente daquela maneira, mas só aconteceu pela forma que ela nos conta.

Livro do mês - "O amante", Marguerite Duras IV
Uma narrativa elíptica, repleta de fragmentos, que ora sugerem, ora explicitam a relação da adolescente branca com seu rico amante chinês. Que deixa vazar em seus interstícios os ecos daquela sociedade. O burburinho das ruas, a constante proximidade dos corpos – na rua, nas barcas, nos restaurantes, sufocante para qualquer estrangeiro. Um contraponto ao erotismo dessa relação, marcada por sutilezas, detalhes e ambivalências – a menina que nina homem, sua consciência sobre sua situação familiar. Escrevendo por caminhos pouco convencionais o universo das relações interraciais num mundo que ainda seguia a arcaica ligação metrópole-colônia.

Sugestões complementares à leitura
Além de escritora, Duras foi uma importante cineasta, com destaque para “India song”, e o roteiro de “Hiroshima, meu amor”, de Alain Resnais, que lhe valeu uma indicação ao Oscar, em 1961. “O amante” foi adaptado para o cinema em 1991, por Jean-Jacques Annaud, criando celeuma pelas cenas explícitas entre a inglesa Jane March e o chinês Tony Leung. Duras o detestou. O espanhol Enrique Vila-Matas conta em seu delicioso “Paris não tem fim” sobre sua temporada passada como inquilino de Duras numa água furtada parisiense. Uma versão no mínimo inusitada sobre a autora.

- José Godoy, CBN -

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