terça-feira, 23 de outubro de 2012

Leitura & literatura


O Nobel chinês
O Nobel de Literatura concedido ao prosador chinês Mo Yan, no último dia 12, é uma boa oportunidade para refletir sobre as transformações do prêmio ao longo dos anos. Para uma retrospectiva sobre essa chancela cultural que, desde 1901, estabeleceu-se buscando equilibrar reconhecimento literário e demandas políticas, com uma tendência crescente por escolhas que comunicam claramente uma preocupação em se balizar à atual ordem econômica.

O Nobel chinês II
De uma premiação eurocêntrica em suas primeiras três décadas, a Academia Sueca passa a ampliar seu escopo de interesse a partir de 1930, quando premia o norte americano Sinclar Lewis com a contenda. Porém, é o pós-guerra e o aumento do conflito ideológico entre americanos e soviéticos, que irá instar uma maior preocupação política. Nada diferente do próprio eixo mundial que, com uma Europa em frangalhos, passa a ser conduzido por novos atores.

O Nobel chinês III
Com o arrefecimento da tensão entre os projetos americano e soviético, a partir do final dos anos 1980, o viés ideológico passa a se substituído por um projeto globalizado, uma tentativa de representar vozes das mais diversas partes do mundo, espelhando a nova ordem econômica. De 1990 para cá é o que temos observado. Países como o minúsculo Santa Lúcia, no Caribe. Turquia, África do Sul (por duas vezes), México, Peru, todos têm hoje autores laureados pelo Nobel.

O Nobel chinês IV
O Nobel a Mo Yan, em 2012, apenas referenda (com atraso) essa tendência. Com algumas peculiaridades que valem ser ressaltadas. Confundem-se na escolha de romancista a valorização da mais potente economia mundial e o afago a um país que tratou como um ultraje nomeações anteriores da academia: o escritor radicado na França, Gao Xingjian, em 1990, e, principalmente, o dissidente Liu Xiaobo, Nobel da Paz, em 2010. De quebra amplia-se o isolamento da literatura norte-americana, sistematicamente desprezada desde 1993.

O Nobel chinês V
E o que dizer de Mo Yan, autor? O leitor em língua portuguesa não tem muito como opinar. Não há livros do romancista editados no Brasil. E uma única edição, em Portugal, de uma de suas principais obras: “Peito grande, ancas largas”. O cenário deve ser rapidamente modificado. Marca influente, carimbo de excelência reconhecido globalmente, o Nobel de Literatura significa muito mais do que sua polpuda premiação. Significa circulação e reconhecimento em escala mundial. Lugar de destaque no disputado espaço de gôndolas com visibilidade. Um passaporte para o exclusivo mercado de produtos premium.

- José Godoy, CBN -

0 comentários: