sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Literatura

Livro do mês: "Madame Bovary"
É o tédio a grande invenção da sociedade burguesa. O tédio, o enfado, a expectativa por acontecimentos que nunca chegam, ou não na velocidade desejada. É o tédio que move a imaginação, a fantasia, mas também o desespero. E quando torna-se insuportável ganha tons de enfermidade. Emma Bovary sofria de tédio. E coube a Flaubert posicionar sua câmera literária de alta potência para legá-la à posteridade.

Livro do mês: "Madame Bovary" II
Condensado em livro em 1857, após sua publicação em seis números da revista literária “Revue de Paris”, “Bovary” causou escândalo, censura e acusações na justiça francesa. Sucesso imediato, em muito alimentado pela polêmica, é uma obra fundamental na imbricação do romantismo e o realismo. Um contraste que permeia toda narrativa, opondo personagens medíocres, repletos de clichês e imaginação fértil à representação nada idealizada que Flaubert faz de seus atos e reflexões.

Livro do mês: "Madame Bovary" III
O mote que orienta Flaubert é um modelo real. Um caso de época, o suicídio da mulher adúltera de Delamare, um pacato oficial de saúde normando. Esse mínimo fio narrativo – corriqueiro, banal – será burilado pelo trabalho obsessivo do autor, que levou quatro anos e meio em sua confecção, registrada em quase quatro mil páginas manuscritas. Advém desse esforço uma obra que expõe com maestria diversas facetas da sociedade francesa do período: a oposição entre religião e ciência; a exuberância da vida urbana em contraste com o arcaísmo da província; a consolidação da pequena burguesia, que prospera deixando pra trás atividades ligadas à terra.

Livro do mês: "Madame Bovary" IV
Soma-se a esse quadro geral, o talento extraordinário para o detalhe, para identificar em duas ou três características um determinado temperamento ou personalidade. Talvez esteja aí o gênio maior de Flaubert: a capacidade de aguçar a mente do leitor pela linguagem, tornando-a invisível, como se a leitura se confundisse com a própria apreensão da realidade. Como se o maior trabalho do autor fosse o de apagar a diferença entre vida e arte.

Livro do mês: "Madame Bovary" V
E por que “Bovary” deve ser lido por nós, homens e mulheres do século XXI? As respostas são múltiplas e nada pragmáticas, impossíveis de serem tomadas como bula. Mas me arrisco a duas. “Bovary” pode nos ajudar a calibrar nossa sensibilidade, ajudar-nos a fixar tipos e atos que persistem entre nós. Quem sabe possamos perceber que o tédio segue a nos açoitar, agora em sua versão 2.0, repleto de preenchimentos instantâneos e tantas vezes inócuos? Ou, quem sabe, notar que a velocidade, símbolo do nosso tempo, não disfarça as ideias rasas e os personagens patéticos que nos cercam a cada dia?

- José Godoy, CBN -

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