sábado, 8 de setembro de 2012

Leitura & Literatura

O autor empreendedor é um símbolo do nosso tempo
Nos Estados Unidos, um grupo de autores está se mobilizando para combater as resenhas de livros sob falsa identidade em sites de vendas de livros. Uma polêmica intensificada pela revelação de que o best-seller RJ Ellory havia postado críticas a outros autores e elogiado seu próprio trabalho usando pseudônimos na Amazon. Em nota, o escritor acabou desculpando-se por seus atos, mas sua atitude nos faz pensar na crescente participação de escritores na divulgação de suas próprias obras.

O autor empreendedor é um símbolo do nosso tempo II
Antes da internet, o roteiro de promoção de uma obra era previsível, e baseado em ações orquestradas pelas editoras. Sessões de autógrafos, palestras e entrevistas eram o roteiro básico de um autor conhecido nos meses seguintes a um lançamento. O mundo virtual está virando essas práticas de pernas pro ar. Primeiro, pela inédita independência do autor em relação às editoras (intensificado pelo crescente fenômeno da autopublicação). Hoje, é possível um autor ativo em fóruns e redes sociais divulgar seu trabalho, dialogar direta e continuamente com seu público, receber feedbacks instantâneos de seu leitor. Uma série de informações complexas de serem compiladas em outros tempos.

O autor empreendedor é um símbolo do nosso tempo III
Essa mudança drástica está criando uma geração de autores empreendedores. Gente que além do esperado talento artístico se dedica a trabalhar incansavelmente por suas obras (ou produtos) no mercado. Essa relação corpo a corpo, ou mouse a mouse, vem criando tendências e surpresas cada vez mais recorrentes. Enquanto os grandes grupos editoriais tentam se adaptar à velocidade desse tempo, presos num emaranhado de questões contratuais, defesas de propriedade intelectual, e discussões sobre as porcentagens na distribuição eletrônica, gêneros e autores vão sendo testados e aprovados por caminhos que fogem ao radar convencional.

O autor empreendedor é um símbolo do nosso tempo IV
A Bowker, que compila dados do mercado editorial, estima que em 2015 600 mil títulos serão autopublicados. Assim, como toda nova atividade, esse novo mercado deverá aprender a calibrar questões éticas, formalizar códigos próprios, e o vasto e crescente mercado de resenhas é uma de suas questões mais pontuais. Enquanto isso, casos como o de Ellory devem se repetir. Numa versão um tanto prosaica da velha prática da concorrência desleal.

Livro do mês em setembro
Não há comentador da obra de Flaubert que não classifique seu trabalho como obsessivo, quase uma maldição. Esse traço em muito explica sua obra relativamente pequena, e muito do processo de confecção de “Madame Bovary”. Flaubert dedicou exaustivos quatros anos e meio à sua confecção, que resultaram numa história conhecida mesmo por aqueles que não se aventuraram a lê-lo. Esposa entediada trai marido, seria o suficiente nessa época de poucos caracteres, para explicá-lo. Mas a grande aventura de ler Flaubert é justamente testemunhar como um escritor de gênio e dedicação exacerbada transforma um mote banal numa obra que atravessa os tempos com seu impacto intocado. Volto a ele no próximo dia 25.

- José Godoy, CBN -

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