domingo, 2 de setembro de 2012

A caminho do País, Morten Harket fala dos 30 anos do A-ha


A banda de synth pop norueguesa A-ha foi uma das maiores dos anos 1980 (chegou a reunir 160 mil pessoas no Rock in Rio 2, em 1990, um recorde) e seus hits de rádio dariam para fazer a programação de uma rádio durante um mês a fio. Take on Me, Stay on These Roads, Crying in the Rain, Hunting High and Low: peças que tiveram impacto em todas as classes, faixas etárias e gostos.
A responsável por esse sucesso é a voz aveludada de Morten Harket, de 52 anos, o cantor e líder da banda, a caminho de São Paulo para o lançamento de Out of My Hands, seu quinto disco solo. Ao mesmo tempo, ele participa, com os antigos colegas, dos shows em celebração de 30 anos do A-ha em Oslo, nos dias 14 e 15. Pouco antes de embarcar para o Brasil, o cantor falou ao Estado.

Muita gente diz que o A-ha antecipou coisas em seu auge, como o techno, algumas ramificações da dance music. O que acha disso?
Não penso sobre isso, não tenho a medida dessas contribuições. Deixo isso para os jornalistas de música. Óbvio que acho interessante que as pessoas digam que tenham sido influenciadas pelo A-ha, que tenham desenvolvido algo a partir do nosso som. É lisonjeiro, mas não tenho preocupação a respeito disso. A celebração dos 30 anos do A-ha, este mês, vai acontecer por sugestão dos fãs, que queriam muito isso. Não foi uma escolha minha, foi um pedido.

Acha o pop atual chato? Gosta de Lady Gaga, por exemplo?
Não tenho interesse, não ouço muito rádio. Estou curioso sobre a vida real, e estou fazendo minha música como uma resposta a essa minha observação da vida. Antes do A-ha eu até ouvia bastante outras coisas, mas hoje quase nada. Lady Gaga é interessante, embora comercial. Não há uma identidade. Se as nossas canções sobreviveram ao tempo e alcançaram os charts, foi porque nós tentamos compor sobre as coisas que conhecíamos, que vivenciávamos. Aquilo que era a nossa verdade naquele momento, como seres espirituais. Eu me mantenho à procura das coisas que me são essenciais. Nunca focamos no sucesso. Se você ouve o rádio, vê que há uma luta ali para testar as pessoas, estão à procura de algo que ludibrie as pessoas, mas não há verdade.

Mas a vida não se passa só no interior da gente. Há os aspectos externos, a política, a crise econômica mundial. Isso não o aflige?
Essencialmente, nós, como seres humanos precisamos primeiro entender quem nós somos. Com a arte, estimulamos o entendimento do que somos, ajudamos a clarear as coisas, a fazer o homem se analisar, descobrir sua identidade. O que vemos e como descrevemos isso é o que podemos fazer para mudar o mundo. Acho que a crise que vivemos só pode ser contornada se o homem desvendar quais são os valores que o motivam hoje em dia. E quais são esses valores? O sistema do dinheiro é o sistema dos valores atual. Por que o homem não reconhece que é parte da natureza? Precisamos entender isso, porque é o que está nos projetando numa crise de identidade. Não estamos nos autogerindo, mas nos deixando carregar. Estamos indo contra a natureza. Aí é que está o turning point: temos de reconhecer nossa responsabilidade. Não é uma grande mudança, é pequena, é um despertar.

E uma música que auxilie esse despertar seria o ideal?
Não acredito em propaganda, mas em responsabilidade. Não acredito em música que carregue lemas, advertências, mas que ajude a revelar qual é a essência do humano. E que o faça ver que tudo está em nossas mãos.

Curiosamente, seu novo disco se chama Out of My Hands. É uma descrição do seu estado de espírito?
É o título de uma das canções do disco. Não há um sentido único nessa letra. Como uma pintura, pode ter várias leituras: pode significar algo que fiz, doei e os ouvintes pegaram para si. Saiu das minhas mãos. É como é a vida: a gente nasce de alguém, mas aí é do mundo. Está fora das mãos da gente, está no universo.

MORTEN HARKET
Credicard Hall. Av. das Nações Unidas, 17.955. 4003-5588. Dia 26, 21h30. R$ 180/ R$ 280.
- Estadão -

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