quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Leitura & Literatura

A morte de Gore Vidal – o intelectual na era da imagem
A morte de Gore Vidal, na última semana, talvez seja o suspiro derradeiro de uma determinada ideia de cultura e civilização. Um projeto que nasce com a independência americana e atinge seu ápice no século XX, quando os Estados Unidos tornam-se a nação mais poderosa do planeta. Um conjunto de valores e preceitos, que como numa longa prova de revezamento, ao longo de décadas, ganhou continuidade por meio de diversas gerações.

A morte de Gore Vidal – o intelectual na era da imagem II
Vidal fez parte de uma das mais importantes linhagens dessa tradição. A que participa ativamente da Segunda Guerra, transformando sua experiência em relato, e a que a partir dos anos 1950, com a soberania americana, utiliza-se de uma de suas armas mais caras, o domínio técnico e mercadológico dos meios de comunicação audiovisual, para amplificar ideias antes restritas aos meios literários e jornalísticos.

A morte de Gore Vidal – o intelectual na era da imagem III
Está aí um entroncamento fundamental do século americano: a raríssima capacidade de seus intelectuais de migrar para os meios de massa, como a emergente TV e a produção cinematográfica, contribuindo para a transposição de uma cultura letrada para uma visual, tão emblemática nos nossos tempos. Ao lado de nomes como Truman Capote e Norman Mailer – não obstante seus desafetos – Vidal soube como poucos expor na arena pública a faceta do intelectual, tornando-se um comentador contumaz da sociedade americana na TV, escrevendo para a Hollywood e para a Broadway, e, em seus livros, oferecendo uma textura humana ao circo do poder em Washington, que lhe era tão familiar (o avô materno, senador; ele, candidato ao Congresso).

A morte de Gore Vidal – o intelectual na era da imagem IV
Em outra chave, se essa geração soube realizar essa transição complexa, manteve intacto o ímpeto do trabalho intelectual, produzindo obras cunhadas no debate dos movimentos sociais e culturais de seu tempo. O que no caso de Vidal pode ser conferido em seu principal projeto, as chamadas Narrativas do Império (American Chronicles), conjunto de sete romances que tratam de períodos e personagens emblemáticos da história americana, como o presidente Lincoln e os anos Franklin Delano Roosevelt, reconstruídos em obras como "Lincoln", "Washington" e "A era dourada".

Livro do mês: "A insustentável leveza do ser"
Fenômeno dos anos 1980, best-seller mundial, traduzido em mais de 30 línguas, "A insustentável leveza do ser" é um dos pontos altos da trajetória do checo Milan Kundera. O quarteto de protagonistas – Tereza, Tomas, Sabina e Franz –, suas escolhas pessoais e amorosas, em meio aos turbulentos anos 1960, em que Praga tornou-se um dos mais emblemáticos casos de resistência à tirania e na afirmação da democracia e da liberdade, são magistralmente desenhados na prosa refinada de Kundera. Voltamos a ele no próximo dia 27.

- José Godoy, CBN -

0 comentários: