sábado, 18 de agosto de 2012

Leitura & Literatura

A Bienal e o paradoxo da leitura no Brasil
A Bienal do Livro lotou o Anhembi no último fim de semana. Nenhuma novidade na história desse evento que recebe, ano após ano, dividindo-se entre São Paulo e Rio, um público ávido por livros. Mas, quando se passeia pelos corredores abarrotados, pelos estandes entulhados e se observa as quilométricas filas para autógrafos dos autores mais populares, a pergunta que paira como uma nuvem pesada é: onde esses leitores se escondem no restante do ano?

A Bienal e o paradoxo da leitura no Brasil II
Porque afora o público flutuante, cujo programa (um tanto esdrúxulo) é simplesmente circular pela feira, nota-se o imenso apelo do evento sobre boa parte do público, em especial nos segmentos infantil e infanto-juvenil. Entre esses leitores é notável o interesse genuíno, uma relação de carinho e admiração por seus autores favoritos, e uma fagulha de entusiasmo pela leitura. O problema, como apontam seguidamente as pesquisas do setor livreiro, é o afastamento desse leitor dos livros assim que o ciclo escolar se encerra.

A Bienal e o paradoxo da leitura no Brasil III
Esse é o ponto central da atual situação do livro no Brasil e a particularidade maior de nosso mercado. A expansão de nossa base de estudantes e os investimentos sistemáticos do país em educação geraram nos últimos anos uma dependência imensa das editoras dos programas de compras governamentais. Com isso, até por uma questão mercadológica e comercial, as empresas passaram a focar seus investimentos, como era de se esperar, nesse leitor escolar (é notável o crescimento dos mercados de livros infantis e infanto-juvenis no país), que deixa de ser cortejado assim que rompe essa faixa etária.

A Bienal e o paradoxo da leitura no Brasil IV
A situação merece estudo sistemático, mas algumas questões podem ser apontadas. A primeira é ausência no mercado nacional de autores de transição, escritores que dialoguem de forma mais direta com esse público que passa a ser abandonado quando deixa a o ensino médio, e que façam a ponte com uma temática mais propriamente adulta. A segunda é a necessidade cada vez maior de dialogar com um público a partir das interfaces por ele utilizadas. O que passa desde a disponibilização de um acervo diverso para leitores eletrônicos até a eventual produção de obras híbridas, que unam o literário ao audiovisual. Por fim, falta às editoras identificar esse nicho desenvolvendo coleções e selos específicos a esse leitor, conhecê-lo melhor, comunicar-se com ele.

Jorge Amado, 100 anos depois de seu nascimento
O peso de um grande ficcionista em uma determinada cultura pode ser medido pelo modo como sua fixação da realidade passa a se estabelecer como visão coletiva. Nesse aspecto, nenhum outro escritor do país no século passado alcançou a dimensão de Jorge Amado. Para o bem, com sua imensa capacidade narrativa, formalizou na linguagem escrita um amplo repertório de trocas sociais, culturais, comerciais e afetivas de uma determinada região do país. Para o mal, como toda obra que se multiplica globalmente, a sua diluiu-se em estereótipos que ainda são associados ao país. A recepção de seu trabalho parece caminhar cada vez mais nesse fio tênue. Quanto mais nos afastamos de nossas velhas práticas, mais sua obra se circunscreve a um retrato de um período; quanto mais a reforçamos, mais ela revive como um parâmetro estabelecido.

- José Godoy, CBN -

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