sexta-feira, 27 de julho de 2012

Leitura & Literatura

No jardim das feras
A história é tão impressionante que parece ter sido inventada. Em 1933, Hitler torna-se chanceler alemão. Na prática, ele comanda o país – um poder ainda contrabalançado pelo velho e doente presidente, o marechal Hindenburg. Nos meses seguintes esse tênue equilíbrio iria se fragilizar até ser rompido pela chamada Noite das Facas Longas, seguida do expurgo das SA, e culminando com a morte do presidente, em agosto de 1934. Os caminhos estavam abertos para as atrocidades que fazem parte da memória de toda a humanidade.

No jardim das feras II
Contemporâneos dessas mudanças e incrustados no cotidiano turbulento de Berlim, alguns homens e mulheres compreenderam a natureza do horror que se desenhava. Alguns, em cargos estratégicos, alertaram os principais governos ocidentais e, por incrível que pareça, houve uma janela para que tudo fosse evitado. Entre eles desponta o embaixador norte- americano William Dodd, que assumiu o cargo em meados de 1933. Esses são os elementos que, organizados com maestria pelo jornalista Erik Larson, são apresentados em "Nos jardins das feras" (Intrínseca, R$ 39,90), ampla reconstituição histórica da ascensão do nazismo.

No jardim das feras III
Um acadêmico sem cacoetes diplomáticos, considerado inadequado por boa parte de seus pares, Dodd irá chegar à Alemanha acompanhado de sua mulher e um casal de filhos adultos, William Jr. e Martha. Não bastassem as tensões políticas, as intrigas do jogo diplomático, o fato de Dodd ter estudado na Alemanha na juventude e testemunhado a degradação dos ideais que associava ao país, Martha acaba por ser tornar um dos mais interessantes personagens daquele momento. Com um divórcio em andamento nos Estados Unidos, ela passa a ser figura recorrente na sociedade berlinense do período. Dorme com oficiais nazistas, torna-se amante de um espião soviético e acaba contribuindo com os comunistas. Sua liberdade exagerada para os padrões da época, somada à falta de traquejo político do pai, irá gerar algumas das passagens mais fascinantes do período, meticulosamente reconstituído, a partir de ampla documentação, por Larson. E, apesar da aparência ficcional, trata-se de fatos reais, insuportavelmente reais.

A gênese de um best-seller
A coluna já contou sobre a gênese do fenômeno "50 shades" – ou "50 tons de cinza", para o leitor brasileiro (você pode reler no link abaixo). A partir do próximo dia 1º de agosto, poderemos observar as engrenagens de um best-seller internacional no nosso mercado. Da tiragem inicial de 200 mil exemplares – um colosso para o país – 70% já estão vendidas para as livrarias. Nas próximas semanas vale checar com os próprios olhos. Dê uma passadinha na livraria de sua preferência, repare na exposição da obra, pilhas, cartazes e eventuais promoções. O grande mistério do mercado do entretenimento é saber onde principia o gosto pessoal e quando este é substituído pela curiosidade.

A gênese de um best-seller II
A trilogia de E.L. James, cuja primeira parte é "50 tons de cinza", vendeu 31 milhões de exemplares no mundo todo e está traduzida para 37 idiomas. É fascinante a capacidade que essas obras têm em manipular símbolos reconhecíveis por uma imensa fatia do público consumidor, condensando-os num bem cultural. Ao mesmo tempo, não deixa de ser assustador que as peculiaridades e singularidades da sexualidade feminina sejam chapadas e reproduzam, ainda mais uma vez, os velhos estereótipos que tão bem foram explorados pelos velhos livrinhos para mulheres vendidos em bancas de jornal.

- José Godoy, CBN -

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