quarta-feira, 11 de julho de 2012

Leitura & Literatura

Diga-me como lês, que eu lhe ofereço uma obra nova
A questão é antiga e a resposta complexa: como o leitor lê seus livros? Sim, qual sua relação com as obras escolhidas? Entusiasmo ou enfado? A leitura flui ou emperra? Qual o impacto de determinadas obras em suas leituras futuras? Enfim, o que se passa naquele lugar mítico e sagrado em que as pessoas se dedicam solitariamente à leitura?

Diga-me como lês, que eu lhe ofereço uma obra nova II
Pois o livro eletrônico veio romper esse manto de opacidade. Matéria recente do “Wall Street Journal” mostra que os gigantes do negócio virtual Amazon, Google e Barnes & Noble vêm compilando os rastros que nós leitores deixamos para trás enquanto nos dedicamos a ler em dispositivos móveis. Mas além de informações que não deixam de ter o efeito de confissões pueris, como o tempo médio de leitura de uma determinada obra, ou as diferenças de hábitos por gênero, algumas dúvidas valem a reflexão. Afinal, esses dados podem ser usados como um balizador para a escrita? Será ético usar informações do leitor para esses fins?

Diga-me como lês, que eu lhe ofereço uma obra nova III
Em relação à produção de obras de ficção comercial e não ficção, o processo deve aproximar livros da produção cinematográfica, com seus grupos de discussão que pretendem antecipar a opinião da futura audiência. Não deve ser estranho também que livros passem a receber novas versões (edições sucessivas) de seus autores, que podem, por exemplo, suprimir ou ampliar determinados trechos e tramas, ou mesmo repensar novas histórias a partir de hábitos e opiniões percebidos.

Diga-me como lês, que eu lhe ofereço uma obra nova IV
Porém, a questão central dos efeitos destas novidades tecnológicas vai em outra direção. Mais especificamente na dos novos acordos firmados nas trocas com o mundo virtual (e as empresas que exploram esses serviços), e na utilização comercial de hábitos e opiniões dos leitores. Há um discurso atual que adere com perfeição à circulação de informação na internet fragilizando noções como autoria, em detrimento dos chamados processos colaborativos. Dessa forma, tanto o escritor, que abre mão de sua concepção e escolhas tentando atender a uma determinada demanda externa, quanto o leitor, que oferta suas resenhas em sites ou simplesmente concorda que seus hábitos de leitura sejam explorados, passam a participar como alimentadores e alimentados dessa hipotética opinião coletiva.

Diga-me como lês, que eu lhe ofereço uma obra nova V
Esse efeito propagandeado como o suprassumo de um processo democrático na relação do consumidor com bens culturais nubla uma percepção óbvia: o enfraquecimento do copyright (quanto mais frágil o autor como individuo, mais fácil o argumento de seu desaparecimento) e a transferência da propriedade intelectual dos autores para essa empresas. Ganha o consumidor, que se sente valorizado em ser ouvido. Ganha ainda mais quem colige, analisa, produz e comercializa a partir dessas opiniões.

- José Godoy, CBN -

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